Vanguart

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Sabor picanha grelhada

                      Quando  estava prestes a fazer a primeira mastectomia, eu realmente havia entregado todos os meus pontinhos. Breve resumo dos meus sentimentos nos meses que antecederam esse dia terrível: eu resolvi que não ia mais levantar da cama. Durou três dias. Dias de choro e revolta. Então uma amiga brava e corajosa veio me ordenar que levantasse imediatamente e tratasse de parar de ser bunda mole. Eu ainda tive de simular uma valentia incomum perante minhas filhas e sorrir aos quatro ventos. Fui obrigada a fazer cara de paisagem quando o médico me disse que iria fazer uma espécie de varredura e investigar tim tim por tim cada pedacinho do meu ser. Até então eu não imaginava que poderia ter câncer noutro órgão. É, as coisas sempre podem piorar. E para alguém ansiosa como eu, processar todas essas informações em pleno início de dezembro, significa que comeria todas as unhas das mãos e pés (caso eu gostasse), pois exames, hospitais e centros cirúrgicos não querem nem saber se você tem uma doença horrorosa no final do ano. O problema é seu. Férias e recesso é direito de todos e então eu só pude estar com os meus pontinhos prontos para serem entregues no início de feveveiro do ano seguinte. Foram dois meses de calvário.
                          Minutos antes da enfermeira vir me buscar para a sala de cirurgia, a simpática paciente que estava na cama em frente à minha sucumbiu. Câncer de útero. Que bom presságio. Morrer é só isso?- eu pensei. Não fosse por minhas filhas, posso garantir que estava tranquila, pronta para o que desse e viesse. Até hoje. 
                          O mundo tem ficado muito atraente mesmo. Essas tecnologias, esses celulares, eu confesso que não vivo mais sem. A gente sai às ruas e vê uma explosão de cores, letreiros e vitrines. Tudo brilha e é luz. Hoje comprei um salgadinho desses Elma Chips. Pingo de Ouro. Lembro que comprava Pingo de Ouro na 5ª série e lá se vão quase quarenta anos, mas... sabor picanha grelhada? Que é isso companheiro? O duro não é morrer. Difícil é ter de ficar sem essas novidades que vêm em bandos, todos os dias, aguçando nossos olhos, ouvidos e todos os sentidos. Como viver sem aquele molho barbecue que agora os supermercados importam dos EUA? Aliás, como morrer sem? 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

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