Vanguart

domingo, 7 de setembro de 2014



                                                             
                                                      Minhas coisinhas simples
             Eis que o mês de agosto terminou e com ele dissipou-se também aquela nuvem negra que pairava sobre a minha cabeça. Foram quatro meses de tortura. Cento e vinte dias catando cachorro a grito, comendo o pão que o diabo amassou.
            Eu nem de longe suspeitava, lá pelo mês de fevereiro, quando tive a sorte de resolver meu inesperado probleminha de saúde lá nos Estados Unidos, que passaria tanto perrengue e em tão pouco tempo.
            Pois é. De um dia para o outro a gente vai do céu ao inferno. E se foram tempos de amargura, nem de longe se comparam à falta de humanidade que a gente é obrigada a engolir todos os dias.
               Já perdi a conta de quantas pessoas deixaram de me cumprimentar por aí. O record fica por conta do grupo que jamais pensaria que fosse agir assim: o pessoal da igreja que eu frequentava. Quantos abraços e desejos de paz eu recebi de gente que hoje finge que não me vê. Depois vêm as pessoas que convivem com você, sabem o que você está passando, mas exigem que você se comporte como uma máquina.  Por isso reproduzo algumas palavras da Márcia Cabrita, atriz, que desabafou em seu blog quando teve câncer: Eu fiquei gravemente doente. Ao contrário do que muitos fantasiam, não tirei de letra. Não sei o porquê, mas existe uma ideia estapafúrdia de que quem está com câncer tem que, pelo menos parecer herói. Nãnanina não! Quem recebe uma notícia dessas não consegue ter pensamentos belos. Bem... eu não conseguia. A cobrança de positividade acabou se tornando um problema. Me olhava no espelho branca, de cabelos curtinhos (antes de caírem) e me achava pronta para fazer figuração na Lista de Shindler. Achava que não tinha chance de sobreviver à cirurgia, só pessoas que não tinham maus pensamentos sobreviviam. O mundo moderno é incrível. Tudo é maravilhoso, não existe sofrimento! As separações são sempre amigáveis e sem lágrimas, as mães não tem mais o direito de embarangar e ficar em casa lambendo a cria. Um mês depois estão lindas, magras, com barriga sarada! Quimioterapia é moleza! Vem cá, só eu que não moro na Disney?
                         Hoje percebo que precisei viver esse luto. Ele passou, apesar do medo fui confiante para o hospital. Mas outras angústias vieram. Sofri pelo que é “o de menos”, chorei pelos cabelos, pelas sobrancelhas, pelos cílios e pelo ... resto que vocês sabem. Chorei pelas dores , enjoos, injeções e tudo mais. Eu me dei esse direito. Eu me dei o direito de ser humana. A Mulher Maravilha mora na televisão, eu moro aqui mesmo. A Mulher Maravilha dá aquela giro e sai linda e poderosa correndo para salvar pessoas. Se eu fizesse a mesma coisa cairia estabacada com a careca no chão. Sinceramente, não acredito em uma seleção divina. Muitas pessoas bacanas e crianças morrem e isso não é nem um pouquinho justo.                                      Acho um saco quando dizem “ Fulano perdeu a batalha contra o câncer” , “Fulana tem tanta vontade e alegria de viver que foi salva”ou “ O amor por meus filhos me salvou”. Me parece tremendamente injusto. Quer dizer que quem morre não amava a vida? O amor pelos filhos não era grande o suficiente? A fé foi pouca? Pensamento bem cruel, não é mesmo?

                    "Senhor, fazei com que eu aceite minha pobreza tal como sempre foi. Que não sinta o que não tenho. Não lamente o que podia ter e se perdeu por caminhos errados e nunca mais voltou. Dai, Senhor, que minha humildade seja como a chuva desejada caindo mansa, longa noite escura numa terra sedenta e num telhado velho. Que eu possa agradecer a Vós, minha cama estreita, minhas coisinhas pobres, minha casa de chão, pedras e tábuas remontadas. E ter sempre um feixe de lenha debaixo do meu fogão de taipa, e acender, eu mesma, o fogo alegre da minha casa na manhã de um novo dia que começa."

                                    CORA CORALINA

2 comentários:

Unknown disse...

QUE LINDO, PRIMA.

Anônimo disse...

Saiba que sua força é inspiradora...mesmo diante de tanto sofrimento, poder ver seu sorriso (você jamais deixou de sorrir) e o brilho nos seus olhos foi demais!!!Encantadora!!!Linda!!!
Te adoro!!!
Mirian Sabeh