Vanguart

segunda-feira, 23 de junho de 2014


O que eu aprendi com o câncer

                    Antes do câncer, pensava que se eu passasse por um perrengue destes, me tornaria uma pessoa melhor, mais doce e compreensiva. Pensamento descuidado. Virei uma mulher indomável.  Bateu, levou. Não mais pondero, não conto até 10. Quero resolver os mal entendidos. Não tenho mais paciência com conversa maçante e gente enjoativa. Santo Deus! Será que virei uma chata? Também estou rabugenta. Sim, não saio do meu sofá à toa. Não venha com almoço beneficiente em salão com telha de eternit e calor de 38 º. Às vezes penso que é coisa da idade e não do câncer, porém uma amiga de 30 anos me falou que ela nasceu assim. 
                     Por mais que você sofra com a quimioterapia, é você e só. Ela é ingrata, perversa, talvez um dos piores imprevistos da vida. A gente chora, quer morrer, jogar copos no muro, gritar até dar sono pra não ter que conviver com aquela dor de carne pisada por uma semana ou mais. Se desabafo com uma amiga, logo percebo sua expressão impaciente de quem quer um assunto mais alegrinho. Eu mesma decici que não reclamo mais, que não peço a ninguém que lave minha louça ou que busque um copo de água.
                     Não faço planos para o ano que vem. Meus ouvidos estão seletivos. As futilidades me parecem tão desnecessárias... meu tempo é raro. Quero fazer o que gosto, cuidar de mim e de quem gosta de mim. Aprendi com o câncer e com alguns êxitos profissionais, que gente "doente" e que gosta de estudar incomoda. O mundo gosta de pessoas medianas, comuns. Não tente obter sucesso. Gente abatida então, não importa se a doença não é contagiosa. O ser humano se afasta.