Vanguart

terça-feira, 29 de março de 2011

Estatística




Que a vida é doida eu sei e todo mundo também. Que um dia estamos felizes e no outro nos sentimos o pior dos mortais é a mais pura verdade.
Tenho passado longos dias pensando, contabilizando meus ganhos e minhas perdas. Coisa de gente estranha, mas não é de hoje que sei que os meus parafusos nunca foram arrochados. Há pouco menos de um mês, tinha tanta pena de mim que fiz questão de passar mais tempo dormindo do que acordada, pra não lembrar de tanto sofrimento.
Fiz verdadeiras equações, coloquei meus abacaxis no Excell, ano a ano: adolescência mega fofa com quilinhos a mais, a bolsa de estudos que ganhei mas não desfrutei, as paixões não correspondidas, o pau no vestibular, quebrar a cara no primeiro emprego, sem contar algumas tragédias que não compensa nem citar porque não é a finalidade da conversa.
Depois acrescentei meus êxitos.
A ciência diz que os seres humanos tendem a valorizar e a lembrar dos momentos felizes, porque o cérebro tem um mecanismo que bloqueia a lembrança dos momentos dolorosos, para a própria sobrevivência da espécie. Hum... minhas estatísticas revelam que embora entre mortos e feridos, eu tenha sobrevivido, contrariando a ciência, é um filme melancólico que permanece na minha cabeça.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Minha cobra de estimação




Sou uma pessoa esquisita. Gosto de limpeza. Vou explicar, afinal é provável que a maioria das pessoas não tolerem porquices.
É que eu adoro limpar certas coisas. Por exemplo, esses dias vi uns trocinhos pretos no azulejo do meu banheiro (mofo). Espirrei o tal do limpa limo. Não ficou lá essas coisas. Então, no meio do banho, com a cabeça encharcada de shampoo, peguei uma escovinha de dentes velha com sabão e ah! Que sensação gostosa, os pretinhos escorrendo pelo azulejo, mortinhos da silva.
Até aí acho que não pareço um pessoa cujo os transtornos obsessivos compulsivos prejudiquem alguém, porém vou confessar: sair de casa para passear e saber que deixei um azulejo com sujeirinha me deixa contrariada. Pode ser a festa do ano.
Confessei.
É uma vergonha revelar essas esquisitices, mas também um alívio, sabia?
Conversando com uma amiga psicóloga, nada sobre esse "vício", claro. Ela falava sobre como o psicólogo atua para ajudar as pessoas. E eu, muito interesseira, prestando atenção em todos os detalhes.
Então, ela dizia que praticamente todas as pessoas precisam de um psicólogo. Que todos temos incômodos ou "encostos", os quais precisamos enxergar para podermos nos livrar. Que o incômodo costuma ser a cobra que pica nossos pés. E nós nos encontramos em um quarto escuro. Alguns de nós possuem um fósforo para enxergar a cobra e por isso mal conseguem percebê-la. Outros possuem uma vela. Outros um lampião, e tem gente que possui um holofote.
Eu tenho um show pirotécnico que clareia meu quarto escuro. Eu vejo a cobra e tenho pavor dela.
Só não consigo matá-la...

quinta-feira, 10 de março de 2011

As melhores coisas do mundo





Hoje assisti “As melhores coisas do mundo”, filme brasileiro fresquinho (2010) que acaba de ser lançado em DVD. Pois é, quando a gente pensa em cinema brasileiro, querendo ou não, vêm um monte de ideias prontas na cabeça. Parece que só sabem fazer filmes de favelas sangrentas, nordestinos sofredores e duplas sertanejas. Sem contar aquelas pornochanchadas dos anos 70 e 80 estilo “A dama do lotação” e os (argh!) filminhos do Didi e da Xuxa reprisados incansavelmente na Sessão da Tarde. Os da Angélica me dão coceira!
E se eu falar que o Fiuk é irmão do protagonista do filme? Muitos vão dizer: “Isso não vai prestar!” A verdade é que “As melhores coisas...” é sensível e inteligente.
É a história de Hermano, um adolescente de 15 anos, filho de pais professores de pós graduação, que tem de aprender a sobreviver depois de uma grande decepção. Isso em meio aos conflitos da idade, como amigos, namorada, sexo, drogas. Mano, como é chamado, conta com a grande amizade de seu irmão Pedro, interpretado por Fiuk. Denise Fraga é a mãe deles, excelente interpretação.
O que mais me encantou no filme foi a fidelidade pela qual o universo adolescente é retratado. As falas parecem que estão saindo da boca das minhas filhas ou de qualquer adolescente dessa geração. Não há forçação de barra, exageros caricatos ou aquelas viagens que fazem a gente sentir vergonha alheia. É sério: não sei se por desconhecimento ou descuido, o fato é que os roteiristas escorregam feio na questão de retratar o universo adolescente.
Um filme pra assitir de novo.

terça-feira, 1 de março de 2011

É uma arte?


Escrever não é uma arte, tao pouco precisa de um dom especial. É um ofício como qualquer outro. A palavra é trabalhada até atingir sua forma ideal e pronto.
Há acontecimentos que desencadeiam a necessidade de escrever. Pode ser uma tragédia ou uma grande injustiça. Situações de tristeza são mais inspiradoras do que as de alegria, mas tem gente que faz textos engraçados falando de assuntos sérios. Esses ao meu ver conseguem transpor a decepção. Já que a arma que possuem para lutar contra as dores do mundo é a palavra, que ela venha para dar o alívio.
Escrever é preciso quando o pensamento não consegue segurar a vontade de que todo mundo saiba o se pensa.
Há pessoas que, por serem especialistas em determinados assuntos, sempre querem contribuir com a humanidade através de sua literatura. É o caso dos psicólogos, psicanalistas, professores de literatura e dos filósofos. Os articulistas dos jornais, os cientistas políticos e os economistas também opinam sobre muitos assuntos. Os educadores não gostam que os economistas palpitem sobre a educação. Mas isso é outra história.
Clarice Lispector dizia que quem escreve ou pinta ou ensina ou dança ou faz cálculos em termos de matemática, faz milagre todos os dias. Escrever é uma grande aventura e exige muita coragem e devoção e muita humildade.
Para o escritor Tchekhov a natureza humana é imperfeita. Mas, de acordo com Tchekhov, pensar que a tarefa da literatura é separar o trigo do joio é rejeitar a própria literatura. A literatura artística é assim chamada porque descreve a vida como realmente é. O seu objetivo é a verdade - incondicional e honestamente. Para o médico e dramaturgo russo, o escritor não é um confeiteiro, um negociante de cosméticos, alguém que entretém; é um homem constrangido pela realização do seu dever e a sua consciência. Para um químico, nada na terra é puro. Um escritor tem de ser tão objetivo como um químico.
Tchekhov costumava falar que o escritor não deveria tentar resolver questões como a existência de Deus, pessimismo, etc. Segundo ele, a função de quem escreve é descrever aqueles que falam, ou pensam, acerca de Deus e do pessimismo, como e em que circunstâncias. O artista não deveria ser juiz dos seus personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial.