domingo, 13 de fevereiro de 2011

A tristeza em pé


"Se você me vir por aí certamente pensaria: lá vai uma garota com as duas pernas, os dois olhos, os dois ouvidos, pelo menos uns dois paus na conta bancária e nenhuma catástrofe significativa pesando em seus dois ombros perfeitos. Ou não pensaria nada porque nada em mim grita.Não tenho motivos para gritar.Lá vai mais uma garota de pé. Sem motivos óbvios ou convincentes para se contorcer de dor por aí.Ou sem nenhuma justificativa para se encolher,desistir,correr de quatro,se esconder em cantos,colar a testa na parede e querer que o mundo vire para o lado até as paredes virarem chãos.Eu sou só uma garota com a vida boa e,por isso,uma garota que segue a vida em pé.Seria até um pecado não dar valor a vida, não é mesmo?Com tanta gente pior por aí,não é mesmo?Seria um pecado não ser absolutamente feliz.E sorrir o tempo todo.E seguir a vida em pé.Depois eu voltei do supermercado cheia de sacolas e umas das sacolas, muito pesada, fez um vergão no meu braço.E o que isso tem de triste? Sei lá,mas eu fiquei triste pra cacete.E o gordo do meu prédio que deixa a esteira completamente melada de suor me deprime demais(...) E o prédio de trás, com seus pagodes dominicais?Me deprime tanto que eu gostaria que assassinato não desse cadeia. Eu gostaria de explodir todos eles.E depois dormir em paz. Mas eu não durmo em paz nunca,mesmo quando estou dormindo em paz.Eu acordo e penso “olha, estou dormindo em paz”.Isso definitivamente não é dormir em paz!E quando vou ver,lá estou eu mais uma vez,dobrando esquinas,cruzando ruas,fazendo curvas, dando setas,entrando em lugares,me despedindo,saindo do banho,abrindo a geladeira,mudando o canal. Sempre de pé.Absolutamente triste e de pé.Eu e minha tristeza em pé(...)E eles já não sofrem mais e não culpam ninguém.E eu também já não sofro mais e nem me culpo.E tudo passa por um tempo e vamos sorrir,vamos ao cinema,vamos dormir depois do almoço do domingo.E daqui uns dias vamos caminhar por aí,com a nossa dor sem motivos. E,principalmente por isso, uma dor filha da puta.E vamos em frente.Eretos com nossa tristeza. Porque a alegria sempre carrega essa certeza de que a alegria é falsa. E a tristeza sempre volta, ainda mais em pé que a gente. Sobre a nossa cabeça.Tirando sarro da nossa ilusão. E o único jeito de ser mais malandro que a tristeza é sendo cínico. E lá vai a garota. Comprar pão quente com seu cinismo(...) Amar com seu cinismo. Porque só o cinismo vence a tristeza. Porque só o cinismo é mais triste do que a tristeza. E eu virei um muro alto feito de pedras cheias de pontas. E coitada da moça da padaria e do moço da farmácia. Porque lá vai uma garota trator. Sempre de pé, carregando seu corpo sempre no chão. Sempre com pressa, pressa de acabar logo com tudo. Para poder deitar um pouco. Para poder dividir a tristeza com a gravidade. Para parar de fingir que tudo bem andar por aí carregando essa merda dessa tristeza. Sempre de pé. Afinal, seria um pecado não ser absolutamente feliz, com tanta gente pior por aí, não é mesmo? Eu não consigo simplesmente deixar morrer e nascer de novo. Porque todos os dias eu nasço de novo, com a esperança que a tristeza fique na outra vida. Mas a tristeza nasce comigo. E nós saímos para trabalhar, comprar pão ou sonhar em explodir o prédio do pagode. Sempre de pé. Somos dois animais de pé. Um ao lado do outro. Dentro do outro. Em cima do outro. Mas sempre juntos. Mesmo quando a alegria ocupa todos os espaços. Ainda assim a tristeza está lá, disfarçada de alegria. E a ausência da tristeza é apenas uma linha de trem.Anunciando que o trem existe, só saiu por um tempo. Daqui a pouco ele volta, maquinando, bufando e atropelando minha cabeça. E o trem corre deitado, mas eu sigo em pé. Afinal, seria um absurdo uma menina com uma vida tão boa não seguir assim (...) E nunca ninguém me odiou ao ponto de me matar, mas eu me sinto morta todas as vezes que alguém deixa de me amar. E eu não estava naquele avião e nem naquele buraco. E nem tem terremotos na minha cidade. Mas nem por isso eu me sinto voando. Mas nem por isso eu deixo de sentir a terra em cima da minha cabeça. Tudo a minha volta treme e chacoalha mais que aquele brinquedo Samba no parquinho. De quando eu era criança e tinha medo de vomitar. E eu não comi nada estragado e nem estou ajoelhada no bidê. Eu nem tenho bidê. Mas sinto a eminência de uma ânsia podre e de joelhos o tempo todo. E eu continuo andando por aí, em pé com minha tristeza. Mas minha sombra está de lado, deitada no chão. Talvez porque assim esteja minha alma.Talvez porque isso seja viver, para quem é de verdade, para quem pensa um pouco, para quem sente um pouco, para quem lê jornal de manhã. Talvez apenas porque é meio dia."

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