Vanguart

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Eu e o câncer de mama- Parte III

          Naquele 5 de dezembro de 2008 eu cheguei em casa, joguei um colchão no chão do meu quarto e me deitei. Não fossem os momentos em que eu precisava fingir que tudo estava bem, era lá que eu ficava e foi lá que permaneci  quase imóvel por uma semana. Eu não queria mais levantar daquele lugar, porque isso significava que eu teria de enfrentar o câncer.
           Entretanto a minha filha mais velha viajaria no outro dia de manhã para fazer vestibular em Londrina e na minha cabeça, de nada iria adiantar deixá-la nervosa com o resultado dos meus exames. Adiei por alguns dias a notícia pra ela e agora o que me preocupava era minha mãe. Eu pensava: "como posso dar mais esse sofrimento pra minha mãe?" Eu não suportava a ideia de vê-la triste e sofrendo por minha causa.
          Minha mãe me ligou na tarde de sexta e eu a tranquilizei. Disse que talvez tivesse de fazer uma cirurgia, coisa tranquila. Somente no sábado, às  três horas  horas da tarde, quando minha mãe veio à minha casa, eu fui dando a notícia em doses homeopáticas. Disse que havia uma ligeira probabilidade de eu ter de tirar a  mama, "por prevenção" somente. Não via a hora de ela ir embora, pra eu poder voltar pro meu colchão. Fazia um calor daqueles. Eu não sentia fome, eu não tinha sono, e tremia de ansiedade.
            Acontece que as mães não são bobas e diante da minha conversa me pediu pra procurar uma 2ª opinião, um outro médico, quem sabe em Jaú porque sempre foi centro de referência. Deus sabe com qual dificuldade eu liguei para a Elaine, irmã da minha amiga Vera, que meses antes descobrira um câncer de pulmão e na época fazia quimioterapia em Jaú. Ela já disparou um "não faça nada por aqui, vai pra fora da cidade. Os médicos daqui não sabem nada. Segunda-feira de manhã estarei aí na sua casa."
          O final de semana foi abafado, lento e um dos piores da minha vida. Na segunda de manhã a Elaine veio conforme prometera. Fomos à Associação do Câncer e ela agendou uma consulta pra mim para a sexta-feira daquela semana com um dos mais conhecidos especialistas em câncer de mama de Jaú, Dr Aírton Joioso.
            Diante de meus exames o Dr. Aírton falou: "infelizmente você  tem câncer. Primeiro é necessário que você saiba que não tem culpa disso. Outra coisa, faremos tudo o que for preciso pra cuidar de você. Hoje em dia a medicina está muito avançada e  cerca 84 % dos pacientes de CA de mama depois do tratamento levam uma vida normal. Ele disse ainda que eu teria de fazer mais alguns exames e que minha cirurgia só poderia ser realizada a partir de janeiro porque em dezembro no Hospital Amaral Carvalho o centro cirúrgico fechava no dia 15. Gostei muito do médico.
            Nem preciso dizer que o Natal e o Ano Novo foram extrememamente dolorosos. No meu trabalho, fui me despedir ainda no começo de dezembro e explicar que eu estava a partir daquele momento cuidando da minha saúde. Meus amigos me olhavam e choravam. Todos que sabiam do câncer me olhavam com cara de pena e muitos falavam coisas muito desencorajantes, pensando estarem fazendo o contrário. Exemplo: "Minha tia morreu de câncer de mama, mas não se preocupe! Ela não se cuidou direito..." (?)
            Infelizmente, não sei se por causa da punção ou devido à minha cabeça, o nódulo começou a doer. Não dava para esquecê-lo um só minuto.
            No dia 29 de dezembro fui para Presidente Prudente e fiz a cintilografia óssea. Em 6 d ejaneiro voltei para Jaú. Aí então tive noção do tamanho do perigo que estava correndo quando o médico abriu os exames e comentou; "agora sim podemos tomar as medidas para o tratamento. Agora que vejo que você não tem mais nada em NENHUM pedaço do seu corpo." Até então eu não tinha plena consciência de que poderia estar com outros focos da doença. Mas não estava. O médico prosseguiu: "A primeira coisa a fazer é a cirurgia. Não é aconselhado que se faça a reconstrução da mama imediatamente." E continuou explicando sobre a cirurgia.
             Entre essa consulta e a cirurgia, que teve de ser paga porque pelo SUS só havia vaga para o final de abril, passaram-se 35 dias.

2 comentários:

gerusia disse...

Eu sou uma dessas mulheres que deram depoimento da supresa do mal da patologia Câncer. Mas, com muita coragem e luta estou aqui, cuidando dos doentes terminais de Câncer. Pode? Sim . Faz 14 anos que passei por toda essa crucial fase de minha vida...Tudo passou; e hoje, eu descobri varios talentos que não sabia que tinha. Porque ficar parada, se DEUS me deu o dom da vida novamente!!!!Coordeno Um grupo de Voluntarias em Patos -Pb "AMIGAS VIVA A VIDA", na prevenção e assistência aos carentes em fase terminal. Viví esses 14 anos por 20 que passaram sem eu dar valor e VIVA A VIDA!!!!!!!!!

rosenes disse...

lindo depoimento Gerusia! Eu ainda não estou 100 % pra poder me dedicar ao voluntariado, mas depois do que vc escreveu, sinto que tenho de esquentar menos a minha cabeça e tb ser menos egoísta.
Como vc bem disse, VIVA A VIDA!