Vanguart

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Eu e o câncer de mama- Parte II

          "A semelhança de muitas mulheres com quem conversei, fui forçada a aprender que preciso me colocar em primeiro lugar. Tenho de me respeitar, tenho de dizer "não" para as coisas que não quero fazer. Para mim, esse é um exercício completamente novo. Sempre tentei agradar os outros. Acredito que o seio é um símblo de alimento, de cuidado. Como outras mulheres, me tornei especialista na arte de dar mais importância aos desejos dos outros que aos meus." Sherryl Crow           
               A cantora norte-americana Sherryl Crow teve câncer de mama em 2006, aos 48 anos. Seu relato faz parte do livro "Câncer- e agora? Como lutar contra a doença sem deixar a vida de lado", de Kris Carr, que reuniu de maneira muito criativa as experiências de aproximadamente 40 mulheres que tiveram câncer nos Estados Unidos nos últimos anos- a maioria jovem, bem sucedida e bem informada. Conforme as mulheres vão contando suas histórias dicas preciosas de "sobrevivência" durante o tratamento do câncer são apresentadas. O livro ainda conta com grande variedade de fotos, endereços, sites, receitas, enfim, trata-se de um manual indispensável para quem passa pelo problema. A própria autora, Kris, tem um câncer raro no fígado desde 2003. Além do livro fez um documentário premiado em que faz uma viagem pelos Estados Unidos, abordando seu momento particular de portadora de câncer.
            Voltando ao depoimento de Sherryl Crow, ele foi citado porque eu sempre fui exatamente como ela. Venho tentando melhorar, mas não é nada fácil. O câncer exige uma mudança de comportamento. É como se recebêssemos um cartão amarelo em um jogo de futebol e soubéssemos que daquele momento em diante, nossos lances teriam de ser cuidadosamente planejados, medidos, porque qualquer movimento precipitado poderia causar nossa expulsão do jogo.
            Então naquela sexta-feira, 5 de dezembro de 2008, voltando pela estrada de Palmital a Assis, com todas aquelas nuvens cinza escuro em um céu que anunciava chuva a qualquer instante, por mais que as lágrimas viessem quando me lembrava particularmente das minhas filhas, algum dispositivo ou substância química do meu cérebro foi liberado e eu entendi: "agora é você em primeiro lugar." É claro que esse processo foi doloroso, que eu me senti rasgando uma mata fechada no peito, pisando num formigueiro e prestes a colocar minhas mãos numa cascavel no cipó ao lado.

Nenhum comentário: