Vanguart

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Festas de final de ano.



Fico pensando se sou anormal ou de outro planeta, porque esquisita isso já sei que sou. Acontece que, durante essa época do ano, Natal e Ano Novo, a vida das pessoas muda fabulosamente.
Até acho saudável que nos preparemos para dias diferentes, pois fazem parte da tradição e dão ânimo aos dias novos que virão, mas será que os natais pomposos existem em todos os lares?
Sem fazer demagogia sobre os fatores sociais dos menos favorecidos e etc, quero apenas refletir a cerca dos fru-frus e do brilho das ceias nos lares dos "chiques e famosos". Hoje em dia, fica mais fácil ver as cenas de novela desse povo nos facebooks da vida. É tudo muito perfeito, muito vermelho e verde, muitos sorrisos e poses. Será que não rola nenhum barraco? Será que todos os tios, cunhados e agregados se amam profundamente?
Pode ser influência das revista "Caras" ou da Rede Globo e essa vontade de ser celebridade, tão em moda hoje em dia. Alguém irá me dizer que ninguém quer expôr os podres e que estes vão pra debaixo do tapete. Mas que é engraçada essa mania de querer ser quem não se é e viver uma outra vida, isso é.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

As redes sociais


Faz um tempinho que eu ando pensando nas mudanças provocadas pelo Orkut e pelo Facebook na vida das pessoas. Só para citar duas das mais famosas redes sociais.
Milhões de adolescentes passam as noites, os dias e finais de semana inteirinhos prostrados em frente de seus computadores, notebooks e ipads. Nenhuma surpresa quanto a isso, afinal de contas, como disse um apresentador famoso da MTV em seu programa de ontem à noite, ele não consegue imaginar como os jovens conheciam pessoas e faziam amigos e namorados antes da internet.
Ficou chocado? Eu não. Quando fui adolescente também tive dificuldades para fazer amigos e arrumar namorados. Bem, na verdade eu tinha algumas amigas, mas namorados... então desenvolvi alguns comportamentos característicos para me virar e sobreviver naquela fase assustadora da vida dos humanos. Enquanto ficava aborrecida em casa porque minhas amigas lindas e loiras saíam com os aspirantes a bofes, comecei a me interessar por duas atividades: música e livros.
Hoje limitarei-me a comentar que os livros fizeram maravilhas aos meus pensamentos. Não é preciso lembrar do que é capaz um bom livro na cabeça de quem precisa ajustar seus parafusos. O papel que as histórias desempenhavam em minha mente é semelhante ao que acontece quando o Gustavo lá de Goiânia resolve adicionar a Maria Luísa de Porto Alegre à sua conta do Facebook. Ele entra no mundo da fantasia. Vá lá que as fotos e as informações sejam verídicas, ainda assim há muito que se descobrir sobre a pessoa que está longe. E por isso se investiga, se imagina e a coisa fica excitante. As comparações com a literatura param por aqui, porque por mais interessante que o enredo de uma paixão via internet possa ser, só na literatura vão se juntar gramática, retórica e arte, combinação das grandes obras e o que as faz inesquecíveis.
Com a rapidez das coisas hoje em dia é muito natural que a internet invada os lares em busca desse bando de jovenzinhos desengonçados e inseguros. Que bom que ela exite e que seja a estratégia para que façam amigos e namorados.
Não há mal nenhum nisso. É apenas marca do tempo em que estamos vivendo. E diga-se de passagem, é uma marca tão atraente que aqui estamos, milhares de tiozões e tiazonas tagarelando pela internet.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Antissocial




O dicionário online Web define antissocial como a pessoa que se opõe ou é prejudicial à organização da sociedade, à ordem social. Confesso que não tinha consciência que eu fosse prejudicial à organização da sociedade, mas não posso negar minha essência. Eu sou antissocial.
Outro dicionário me diz que ter comportamentos antissociais em algum momento não indica necessariamente um transtorno de personalidade antissocial. Ufa!
O fato é que ando fechando os vidros do carro quando estou na rua da minha casa só para não cumprimentar sempre os mesmos vizinhos, que eu não troco uma ideia há no mínimo dois anos. Pronto, falei. Não é que eu queira me defender, mas eu posso sair e chegar na minha casa de meia em meia hora e aquela senhora aposentada sempre está varrendo a calçada. Uma vez, há mais de dois anos, troquei meia hora de conversa com ela. Por mim seria menos, mas ela se agarrou em mim com uma sede de falar e de ser ouvida que eu não conseguia me despedir.
Eu sei, eu sei que estou sendo cruel e insensível. Tenho lembranças da minha infância, em que meus pais colocavam suas cadeiras de plástico nas calçadas e os vizinhos deles também e eles só entravam depois de as costas estarem doloridas e tatuadas com aquelas marcas que os plastiquinhos deixavam.
É não é só isso! Eu também não atendo ao telefone. Costumava não atender depois de ver o número que estava me ligando e considerar a pessoa não muito querida. Ultimamente não estou atendendo nem a moça da promoção do supermercado que quer me falar que eu acabo de ganhar um carro zero.
Minhas pesquisas em busca de cura me informam que os indivíduos antissociais aprendem a comportar-se dessa forma à medida que seus atos produzem como consequência a remoção ou a eliminação de eventos perturbadores, ameaçadores ou perigosos, de forma que ele consiga livrar-se, fugir, esquivar-se ou diminuir a frequência ou a intensidade de uma estimulação considerada negativa. Também não visito mais parentes que gostam de chorar as pitangas e falar mal do resto da família. E no supermercado eu desvio e fujo de conhecidos grudentos.
Culpa ou não do cansaço e da correria do dia a dia reconheço os pequenos deslizes. Até agora não penso que o caso é grave, mas se ficar pior só mudando para uma ilha deserta...

sábado, 1 de outubro de 2011

A vida dos outros.

Tenho o costume de andar por aí observando as pessoas. Não são todas e nem faço isso o tempo todo. Não sei o que aciona o meu instinto observador, mas de repente baixa um negócio e eu começo a imaginar que tipo de vida leva o sujeito ou a madame que cruzou o meu caminho naquela tarde na fila do caixa eletrônico, por exemplo. Quanto mais caracterizadas as criaturas, melhor. Vou explicar. Uma noite dessas no supermercado, no corredor dos requeijões, margarinas e queijos, avistei um casal digno de meu “estudo”. O varão aparentava uns 30 anos, estava um pouco acima do peso e trajava uma calça social, camisa e gravata. A donzela era esguia, tinha cabelos pretos e muito lisos e revelava 35 anos aproximadamente. Ornamentava uma saia e um blazer rosinha fúcsia, colarzinho de pérolas e sapatos scarpins pretos. Andavam apressados entre os queijos e a gôndola de vinhos. A primeira impressão que tive do par era a de que fossem bancários, ele gerente e ela supervisora do setor financeiro. Supostamente deixaram a agência muito após o anoitecer, porque já trabalhei em banco e pelo menos na minha época, não tinha hora pra ir embora, porque os clientes comerciantes ou empresários, iam falar com o gerente só depois do expediente. Cheguei ao êxtase de concebê-los em uma igreja evangélica, dessas pentecostais, porque as roupas pareciam saídas do armário do pastor e da sua soberana. Amo os supermercados. Tanto para comprar, como para investigar, futricar, observar e me divertir. Já dizia Mário Prata, que a melhor fila para se curtir, para entender e conhecer o caráter, o nível social das pessoas, é a fila do supermercado. Nada como ficar ali com o seu carrinho, observando o que as pessoas tiram dos seus carrinhos. Ali vai uma vida inteira. Você fica sabendo de tudo da pessoa. Tudo. Seus gostos, suas manias, seus desejos mais íntimos. Cada carrinho daquele carrega uma vida inteira. Ou mais de uma vida. Ali vão coisas para a compradora, para o marido dela, para os filhos dela, para a vovozinha dela. E ali mesmo, você fica sabendo se ela tem cachorro ou gato em casa. E se os trata bem. Sem contar aquele veneno para ratos. E fica sabendo também, pela quantidade, se o super é para um dia, uma semana ou é mensal. Bem, pela quantidade de papel higiênico, a coisa vai longe.

sábado, 27 de agosto de 2011

Terceiro ato



Aos dez anos, eu acreditava que a idade adulta começava aos vinte. Aos vinte, achei que ainda não havia chegado lá e decretei que adultos eram só os com mais de trinta. (Convenhamos, a apenas seis primaveras da oitava série você é, no máximo, um pós-adolescente: provavelmente ainda mora com os pais, deixa a toalha molhada em cima da cama e siglas como IPTU ou FGTS fazem muito menos sentido do que MILF ou THC.) Ao completar a terceira década de vida, contudo, não tive como protelar: alguns fios brancos no queixo, projetos de rugas nos cantos dos olhos e entradas moderadas avançando pelo couro - já não tão - cabeludo me atestavam, no espelho; eis aí um espécime maduro, acabado e plenamente desenvolvido de Homo sapiens sapiens. E, sabe o que? Fiquei bastante contente com a descoberta.

A infância é terrível. Você precisa chamar as autoridades competentes até mesmo para limpar a bunda, é incapaz de organizar verbalmente as ideias mais rudimentares e quando o faz por outras vias, como, por exemplo, pintando a parede da sala com seu estojo de canetinhas, fica um mês sem sobremesa. A infância é uma espécie de condicional, após a solitária do útero. Uma liberdade vigiada, que deve te preparar para a próxima fase infeliz: a adolescência. Ser adolescente é mais ou menos como mendigar em Paris ou estagiar numa empresa bacana: você já está lá, onde tudo acontece, mas não pode participar da festa; porque é duro, porque é nerd, porque é prego, ou porque tem que decorar o número atômico dos alcalinos terrosos e a função das mitocôndrias, para a prova da FUVEST.

Só tive o que comemorar, portanto, quando terminaram essas duas fases de tutela e me vi finalmente livre. Aos trinta, você escolhe bola, campo e o time em que quer jogar. Tá bom, pode reclamar que sua bola não é uma Jabulani, que o gramado está mais pra uma várzea do Tamanduateí do que pro tapete do Camp Nou, que no seu time só tem perna de pau. Mas uma das vantagens da idade adulta é que, ao contrário da infância e da adolescência, que passam num piscar de olhos – ou num xixizinho e numa ejaculação precoce, para nos atermos a imagens mais condizentes com o assunto -, a maturidade dura quatro décadas; é tempo suficiente para você se acostumar consigo mesmo ou para mudar a situação. E talvez seja essa a maior lição da maturidade: saber discernir entre as coisas que você pode e precisa lutar para mudar e aquelas que deve simplesmente aceitar. Na infância ou na adolescência, ser ruim nos esportes era algo que me atormentava. “Por que, ó, Deus, fizeste-me o último a ser escolhido em todos os times, na Educação Física?”, eu perguntaria ao Senhor, se Nele acreditasse e decidisse importuná-Lo com meus resmungos. Hoje, isso é apenas um dado, quase indiferente, como ter cabelo castanho ou ser canhoto.

Se você está em torno dos trinta, pode lutar durante os próximos quarenta anos para realizar projetos e conquistar a(s) mulher(es) por quem estiver afim, para correr uma maratona ou ganhar dinheiro; mas vai ter que aceitar suas orelhas de abano ou pernas finas, o fato de não ter a lábia de Don Juan, a inteligência do Einstein nem a conta do Bill Gates. E por que não aceitaria? O mundo é grande, tá cheio de gente interessante e tem um monte de coisa boa pra fazer, mesmo não podendo pegar sempre a mais gata da festa, jamais descobrir uma segunda teoria da relatividade nem comprar um iate, numa quarta-feira à tarde, se estiver um pouco entediado.

Três décadas. Dá o que pensar. Mas não tenhamos pressa. Como disse uma amiga minha, nos últimos minutos dos meus vinte e nove: “Não se preocupe, meu querido, os homens começam as trinta”. Com calma, vamos aproveitar esse longo terceiro ato, antes que chegue o quarto – a velhice – e o quinto - sobre o qual não convém falar, por estar muito lá pra frente, só bem depois dos noventa. Ou dos cem? Cento e dez? Cento e quinze, cento e vinte...

Escrito por Antonio Prata

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Justificando...

Meses sem postar nenhum novo texto por total falta de tempo, ou melhor: por não conseguir me mexer depois que eu chego em casa, cansada por mais um dia de trabalho.
É uma pena, mas sempre resta uma esperança de que, em uma tarde dessas eu chegue mais cedo e aí resolva escrever.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Como não encher o saco de alguém que está com câncer




Acho que de uma vez por todas merecemos não ouvir mais:
- "Aquela doença"
- "A cura está na cabeça"
- "Vc deixou a doença entrar"
- "Câncer é tristeza"
- "Câncer é carma"
- "Somente o amor aos filhos, a alegria de viver, a fé e o pensamento positivo podem salvar"
- "Fulano perdeu a batalha contra o câncer"
- "Conheço alguém que se curou de câncer em estado terminal só tomando essa erva milagrosa"
- "Todos os efeitos colaterais são "o de menos"

O que merecemos ouvir:
- "Posso te ajudar?"
- "Rezo por vc e sei que vai ficar boa"
- "A medicina evolui a cada dia."
- "Isso vai passar"
- "Ficar careca é ruim sim, comprei um lenço lindo pra vc, quer experimentar?"
- "Só liguei para vc saber que estou pensando em vc"
- "Eu te amo"
Se vc for muito rico:
- "Posso pagar a cirurgia'
Se vc for médio rico:
- "Posso pagar próxima consulta"
Se vc for pobre:
- "Trouxe esse pirulito"

Postado por Força na Peruca às 10:09 18 comentários

terça-feira, 29 de março de 2011

Estatística




Que a vida é doida eu sei e todo mundo também. Que um dia estamos felizes e no outro nos sentimos o pior dos mortais é a mais pura verdade.
Tenho passado longos dias pensando, contabilizando meus ganhos e minhas perdas. Coisa de gente estranha, mas não é de hoje que sei que os meus parafusos nunca foram arrochados. Há pouco menos de um mês, tinha tanta pena de mim que fiz questão de passar mais tempo dormindo do que acordada, pra não lembrar de tanto sofrimento.
Fiz verdadeiras equações, coloquei meus abacaxis no Excell, ano a ano: adolescência mega fofa com quilinhos a mais, a bolsa de estudos que ganhei mas não desfrutei, as paixões não correspondidas, o pau no vestibular, quebrar a cara no primeiro emprego, sem contar algumas tragédias que não compensa nem citar porque não é a finalidade da conversa.
Depois acrescentei meus êxitos.
A ciência diz que os seres humanos tendem a valorizar e a lembrar dos momentos felizes, porque o cérebro tem um mecanismo que bloqueia a lembrança dos momentos dolorosos, para a própria sobrevivência da espécie. Hum... minhas estatísticas revelam que embora entre mortos e feridos, eu tenha sobrevivido, contrariando a ciência, é um filme melancólico que permanece na minha cabeça.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Minha cobra de estimação




Sou uma pessoa esquisita. Gosto de limpeza. Vou explicar, afinal é provável que a maioria das pessoas não tolerem porquices.
É que eu adoro limpar certas coisas. Por exemplo, esses dias vi uns trocinhos pretos no azulejo do meu banheiro (mofo). Espirrei o tal do limpa limo. Não ficou lá essas coisas. Então, no meio do banho, com a cabeça encharcada de shampoo, peguei uma escovinha de dentes velha com sabão e ah! Que sensação gostosa, os pretinhos escorrendo pelo azulejo, mortinhos da silva.
Até aí acho que não pareço um pessoa cujo os transtornos obsessivos compulsivos prejudiquem alguém, porém vou confessar: sair de casa para passear e saber que deixei um azulejo com sujeirinha me deixa contrariada. Pode ser a festa do ano.
Confessei.
É uma vergonha revelar essas esquisitices, mas também um alívio, sabia?
Conversando com uma amiga psicóloga, nada sobre esse "vício", claro. Ela falava sobre como o psicólogo atua para ajudar as pessoas. E eu, muito interesseira, prestando atenção em todos os detalhes.
Então, ela dizia que praticamente todas as pessoas precisam de um psicólogo. Que todos temos incômodos ou "encostos", os quais precisamos enxergar para podermos nos livrar. Que o incômodo costuma ser a cobra que pica nossos pés. E nós nos encontramos em um quarto escuro. Alguns de nós possuem um fósforo para enxergar a cobra e por isso mal conseguem percebê-la. Outros possuem uma vela. Outros um lampião, e tem gente que possui um holofote.
Eu tenho um show pirotécnico que clareia meu quarto escuro. Eu vejo a cobra e tenho pavor dela.
Só não consigo matá-la...

quinta-feira, 10 de março de 2011

As melhores coisas do mundo





Hoje assisti “As melhores coisas do mundo”, filme brasileiro fresquinho (2010) que acaba de ser lançado em DVD. Pois é, quando a gente pensa em cinema brasileiro, querendo ou não, vêm um monte de ideias prontas na cabeça. Parece que só sabem fazer filmes de favelas sangrentas, nordestinos sofredores e duplas sertanejas. Sem contar aquelas pornochanchadas dos anos 70 e 80 estilo “A dama do lotação” e os (argh!) filminhos do Didi e da Xuxa reprisados incansavelmente na Sessão da Tarde. Os da Angélica me dão coceira!
E se eu falar que o Fiuk é irmão do protagonista do filme? Muitos vão dizer: “Isso não vai prestar!” A verdade é que “As melhores coisas...” é sensível e inteligente.
É a história de Hermano, um adolescente de 15 anos, filho de pais professores de pós graduação, que tem de aprender a sobreviver depois de uma grande decepção. Isso em meio aos conflitos da idade, como amigos, namorada, sexo, drogas. Mano, como é chamado, conta com a grande amizade de seu irmão Pedro, interpretado por Fiuk. Denise Fraga é a mãe deles, excelente interpretação.
O que mais me encantou no filme foi a fidelidade pela qual o universo adolescente é retratado. As falas parecem que estão saindo da boca das minhas filhas ou de qualquer adolescente dessa geração. Não há forçação de barra, exageros caricatos ou aquelas viagens que fazem a gente sentir vergonha alheia. É sério: não sei se por desconhecimento ou descuido, o fato é que os roteiristas escorregam feio na questão de retratar o universo adolescente.
Um filme pra assitir de novo.

terça-feira, 1 de março de 2011

É uma arte?


Escrever não é uma arte, tao pouco precisa de um dom especial. É um ofício como qualquer outro. A palavra é trabalhada até atingir sua forma ideal e pronto.
Há acontecimentos que desencadeiam a necessidade de escrever. Pode ser uma tragédia ou uma grande injustiça. Situações de tristeza são mais inspiradoras do que as de alegria, mas tem gente que faz textos engraçados falando de assuntos sérios. Esses ao meu ver conseguem transpor a decepção. Já que a arma que possuem para lutar contra as dores do mundo é a palavra, que ela venha para dar o alívio.
Escrever é preciso quando o pensamento não consegue segurar a vontade de que todo mundo saiba o se pensa.
Há pessoas que, por serem especialistas em determinados assuntos, sempre querem contribuir com a humanidade através de sua literatura. É o caso dos psicólogos, psicanalistas, professores de literatura e dos filósofos. Os articulistas dos jornais, os cientistas políticos e os economistas também opinam sobre muitos assuntos. Os educadores não gostam que os economistas palpitem sobre a educação. Mas isso é outra história.
Clarice Lispector dizia que quem escreve ou pinta ou ensina ou dança ou faz cálculos em termos de matemática, faz milagre todos os dias. Escrever é uma grande aventura e exige muita coragem e devoção e muita humildade.
Para o escritor Tchekhov a natureza humana é imperfeita. Mas, de acordo com Tchekhov, pensar que a tarefa da literatura é separar o trigo do joio é rejeitar a própria literatura. A literatura artística é assim chamada porque descreve a vida como realmente é. O seu objetivo é a verdade - incondicional e honestamente. Para o médico e dramaturgo russo, o escritor não é um confeiteiro, um negociante de cosméticos, alguém que entretém; é um homem constrangido pela realização do seu dever e a sua consciência. Para um químico, nada na terra é puro. Um escritor tem de ser tão objetivo como um químico.
Tchekhov costumava falar que o escritor não deveria tentar resolver questões como a existência de Deus, pessimismo, etc. Segundo ele, a função de quem escreve é descrever aqueles que falam, ou pensam, acerca de Deus e do pessimismo, como e em que circunstâncias. O artista não deveria ser juiz dos seus personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Monday, Monday

No dia em que eu nasci, a música número 1 nas paradas da Billboard era Monday, Monday, dos The Mamas and the Papas. Antiguinha essa, hêim? Se você também quiser saber que som te embalou no berço, clique aqui: http://www.joshhosler.biz/NumberOneInHistory/SelectMonth.htm

Segunda, Segunda- The Mamas and the Papas

Bah-da bah-da-da-da...Bah-da bah-da-da-da...Bah-da bah-da-da-da...
Segunda, segunda,tão boa para mim,
Manhã de segunda, foi tudo que eu esperava que fosse.
Manhã de segunda, a manhã de segunda não poderia imaginar
Que na noite de segunda você ainda estaria aqui comigo.
Segunda, segunda,
não posso acreditar naquele dia.
Segunda, segunda, às vezes simplesmente termina desse jeito.
Oh, manhã de segunda, você não me deu nenhum aviso do que iria
acontecer.
Oh, segunda, segunda, como você pôde partir e não me levar?
Dia sim, dia não; dia sim, dia não;Dia sim, dia não da semana é ótimo, sim.
Mas sempre que a segunda-feira chega,Você pode me encontrar chorando o tempo todo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

down em mim


Eu não sei o que o meu corpo abriga
Nestas noites quentes de verão
E nem me importa que mil raios partam
Qualquer sentido vago de razão
Eu ando tão down
Eu ando tão down

Outra vez vou te cantar, vou te gritar
Te rebocar do bar
E as paredes do meu quarto vão assistir comigo
À versão nova de uma velha história
E quando o sol vier socar minha cara
Com certeza você já foi embora
Eu ando tão down
Eu ando tão down

Outra vez vou te esquecer
Pois nestas horas pega mal sofrer
Da privada eu vou dar com a minha cara
De panaca pintada no espelho
E me lembrar, sorrindo, que o banheiro
É a igreja de todos os bêbados
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Eu ando tão down
Down... down

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A tristeza em pé


"Se você me vir por aí certamente pensaria: lá vai uma garota com as duas pernas, os dois olhos, os dois ouvidos, pelo menos uns dois paus na conta bancária e nenhuma catástrofe significativa pesando em seus dois ombros perfeitos. Ou não pensaria nada porque nada em mim grita.Não tenho motivos para gritar.Lá vai mais uma garota de pé. Sem motivos óbvios ou convincentes para se contorcer de dor por aí.Ou sem nenhuma justificativa para se encolher,desistir,correr de quatro,se esconder em cantos,colar a testa na parede e querer que o mundo vire para o lado até as paredes virarem chãos.Eu sou só uma garota com a vida boa e,por isso,uma garota que segue a vida em pé.Seria até um pecado não dar valor a vida, não é mesmo?Com tanta gente pior por aí,não é mesmo?Seria um pecado não ser absolutamente feliz.E sorrir o tempo todo.E seguir a vida em pé.Depois eu voltei do supermercado cheia de sacolas e umas das sacolas, muito pesada, fez um vergão no meu braço.E o que isso tem de triste? Sei lá,mas eu fiquei triste pra cacete.E o gordo do meu prédio que deixa a esteira completamente melada de suor me deprime demais(...) E o prédio de trás, com seus pagodes dominicais?Me deprime tanto que eu gostaria que assassinato não desse cadeia. Eu gostaria de explodir todos eles.E depois dormir em paz. Mas eu não durmo em paz nunca,mesmo quando estou dormindo em paz.Eu acordo e penso “olha, estou dormindo em paz”.Isso definitivamente não é dormir em paz!E quando vou ver,lá estou eu mais uma vez,dobrando esquinas,cruzando ruas,fazendo curvas, dando setas,entrando em lugares,me despedindo,saindo do banho,abrindo a geladeira,mudando o canal. Sempre de pé.Absolutamente triste e de pé.Eu e minha tristeza em pé(...)E eles já não sofrem mais e não culpam ninguém.E eu também já não sofro mais e nem me culpo.E tudo passa por um tempo e vamos sorrir,vamos ao cinema,vamos dormir depois do almoço do domingo.E daqui uns dias vamos caminhar por aí,com a nossa dor sem motivos. E,principalmente por isso, uma dor filha da puta.E vamos em frente.Eretos com nossa tristeza. Porque a alegria sempre carrega essa certeza de que a alegria é falsa. E a tristeza sempre volta, ainda mais em pé que a gente. Sobre a nossa cabeça.Tirando sarro da nossa ilusão. E o único jeito de ser mais malandro que a tristeza é sendo cínico. E lá vai a garota. Comprar pão quente com seu cinismo(...) Amar com seu cinismo. Porque só o cinismo vence a tristeza. Porque só o cinismo é mais triste do que a tristeza. E eu virei um muro alto feito de pedras cheias de pontas. E coitada da moça da padaria e do moço da farmácia. Porque lá vai uma garota trator. Sempre de pé, carregando seu corpo sempre no chão. Sempre com pressa, pressa de acabar logo com tudo. Para poder deitar um pouco. Para poder dividir a tristeza com a gravidade. Para parar de fingir que tudo bem andar por aí carregando essa merda dessa tristeza. Sempre de pé. Afinal, seria um pecado não ser absolutamente feliz, com tanta gente pior por aí, não é mesmo? Eu não consigo simplesmente deixar morrer e nascer de novo. Porque todos os dias eu nasço de novo, com a esperança que a tristeza fique na outra vida. Mas a tristeza nasce comigo. E nós saímos para trabalhar, comprar pão ou sonhar em explodir o prédio do pagode. Sempre de pé. Somos dois animais de pé. Um ao lado do outro. Dentro do outro. Em cima do outro. Mas sempre juntos. Mesmo quando a alegria ocupa todos os espaços. Ainda assim a tristeza está lá, disfarçada de alegria. E a ausência da tristeza é apenas uma linha de trem.Anunciando que o trem existe, só saiu por um tempo. Daqui a pouco ele volta, maquinando, bufando e atropelando minha cabeça. E o trem corre deitado, mas eu sigo em pé. Afinal, seria um absurdo uma menina com uma vida tão boa não seguir assim (...) E nunca ninguém me odiou ao ponto de me matar, mas eu me sinto morta todas as vezes que alguém deixa de me amar. E eu não estava naquele avião e nem naquele buraco. E nem tem terremotos na minha cidade. Mas nem por isso eu me sinto voando. Mas nem por isso eu deixo de sentir a terra em cima da minha cabeça. Tudo a minha volta treme e chacoalha mais que aquele brinquedo Samba no parquinho. De quando eu era criança e tinha medo de vomitar. E eu não comi nada estragado e nem estou ajoelhada no bidê. Eu nem tenho bidê. Mas sinto a eminência de uma ânsia podre e de joelhos o tempo todo. E eu continuo andando por aí, em pé com minha tristeza. Mas minha sombra está de lado, deitada no chão. Talvez porque assim esteja minha alma.Talvez porque isso seja viver, para quem é de verdade, para quem pensa um pouco, para quem sente um pouco, para quem lê jornal de manhã. Talvez apenas porque é meio dia."

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

dor



A cada dia que passa fico mais medrosa. Pode passar o tempo que for e eu não perco a covardia. Hoje fui ao dentista para começar um tratamento de canal. Me instalei na poltrona e me agarrei aos seus braços como quem está prestes a cair em um precipício. Meus olhos estalados observando cada movimento do dentista e eis que ele pega rapidamente a injeção de anestesia.
Eu sabia que não ia ser moleza. "Vai doer um pouquinho..."- disse o carrasco. Por que falar isso? Será que ele não percebe que a palavra tem poder? Isso é bíblico! Dito e feito. Conforme o facínora me picava, eu ia me afastando até quase cair da cadeira.
Percebendo a minha agonia o dentista começou a cantar. Sim! O meu dentista é metido a tenor italiano. O repertório é eclético. A escolhida de hoje foi uma música do Almir Sater: "quando uma estrela cai, no escurão da noite, e um violeiro toca suas mágoas, então os óio dos bichos, vão ficando iluminados rebrilham neles estrelas de um sertão enluarado..."
Que vontade de mandar o dentista para bem longe!
Boca anestesiada, é hora de abrir o canal. E lá vem o terrível motorzinho. Nesse momento comecei a rezar fervorosamente e a fazer inúmeras promessas caso não sentisse dor. Infelizmente, não alcancei sucesso e mal o motorzinho relou no meu dente dei um salto da cadeira, de tão agudo o meu tormento.
"Tá doendo?"- disse o perverso. "Nããão, imagina! Sou atriz e resolvi ensaiar, interpretar uma personagem para passar o tempo, justo aqui..."- deu vontade de falar.
"É que o motorzinho relou na polpa do dente, na parte mais sensível..."
"Jura?"
E lá vem mais anestesia. Dessa vez direto no meio do dente, na carne, na tal polpa.
Olha, desde os quatro anos de idade passo por intervenções cirúrgicas. Comecei pela extração das amídalas, depois de um tumorzinho nas pálpebras aos doze anos, duas cesarianas, uma histerectomia, duas cirurgias para retirar parte da tireóide (uma delas para retirada de um câncer), uma mastectomia mais recentemente, oito quimioterapias e trinta sessões de radioterapia, ufa. E daí? Essa variedade de cirurgias não serviram para me tornar uma pessoa cheia de coragem. Muito pelo contrário.
Estou ficando pateta, um ser que não se pode considerar por não ser exemplo para quem vai passar por situações dolorosas.
Será que vai doer? Vai sim! E muito!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Gosto


Eu acho bromélia a coisa mais linda do mundo. Tá bom, uma das coisas mais lindas do mundo. Eu tenho uma. Acontece que faz dois anos que ela vive comigo e nada de ser mamãe, de dar florzinhas.
Ora, ora, então tive a inédita ideia de procurar saber mais sobre minha hóspede no google. Aí tive uma tentaçãozinha de mudar o título desse texto para: "O conhecimento é irresistível", mas desisti pela falta de originalidade.
Vamos combinar que não me tornei nenhuma especialista em bromélias, mas como nesse mundo nada é por acaso, e esse nada é por acaso não é plágio do Nélson Rodrigues, descobri que as bromélias são parentes muito próximas dos abacaxis. Tanto que, o abacaxi foi uma espécie de bromélia que chegou à mesa dos europeus após a segunda viagem de Cristovão Colombo à América.
Gente! Quem me conhece sabe que abacaxi é a minha fruta pre-fe-ri-da!
Quer mais? A bromélia é uma flor ANDRÓGENA! Isso quer dizer que ela mistura características femininas e masculinas em um único ser,ou seja, nela mesma. Resumindo: ela não é nem masculina nem feminina.Mas isso é pra lá de moderno!
Eu já estava muito exibida com a minha pesquisa e com todo o conhecimento que estava adquirindo quando a tristeza tomou conta do meu ser: a bromélia só floresce uma vez na vida, já na idade adulta. Depois de florir, ela dá os brotos – seus filhotes – na lateral. E assim completa o seu ciclo de vida. Triste não?
É, nem tudo são flores nessa vida e preciso me conformar com a possibilidade próxima da minha bromélia me deixar...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Para ti


Foi para ti

que desfolhei a chuva

para ti soltei o perfume da terra

toquei no nada

e para ti foi tudo



Para ti criei todas as palavras

e todas me faltaram

no minuto em que falhei

o sabor do sempre



Para ti dei voz

às minhas mãos

abri os gomos do tempo

assaltei o mundo

e pensei que tudo estava em nós

nesse doce engano

de tudo sermos donos

sem nada termos

simplesmente porque era de noite

e não dormíamos

eu descia em teu peito

para me procurar

e antes que a escuridão

nos cingisse a cintura

ficávamos nos olhos

vivendo de um só olhar

amando de uma só vida



Mia Couto

Os sete sapatos sujos


Às vezes me pergunto: de onde vem a dificuldade em nos pensarmos como sujeitos da História? Vem sobretudo de termos legado sempre aos outros o desenho da nossa própria identidade. Primeiro, os africanos foram negados. O seu território era a ausência, o seu tempo estava fora da História. Depois, os africanos foram estudados como um caso clínico. Agora, são ajudados a sobreviver no quintal da História.
Estamos todos nós estreando um combate interno para domesticar os nosso antigos fantasmas. Não podemos entrar na modernidade com o atual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico.

O primeiro sapato:
a ideia que os culpados são sempre os outros
e nós somos sempre vítimas
Nós já conhecemos este discurso. A culpa já foi da guerra, do colonialismo, do imperialismo, do apartheid, enfim, de tudo e de todos. Menos nossa. É verdade que os outros tiveram a sua dose de culpa no nosso sofrimento. Mas parte da responsabilidade sempre morou dentro de casa.
Estamos sendo vítimas de um longo processo de desresponsabilização. Esta lavagem de mãos tem sido estimulada por algumas elites africanas que querem permanecer na impunidade. Os culpados estão à partida encontrados: são os outros, os da outra etnia, os da outra raça, os da outra geografia.
Caros irmãos: Estou completamente cansado de pessoas que só pensam numa coisa: queixar-se e lamentar-se num ritual em que nos fabricamos mentalmente como vítimas. Choramos e lamentamos, lamentamos e choramos. Queixamo-nos até à náusea sobre o que os outros nos fizeram e continuam a fazer. E pensamos que o mundo nos deve qualquer coisa. Lamento dizer-vos que isto não passa de uma ilusão. Ninguém nos deve nada. Ninguém está disposto a abdicar daquilo que tem, com a justificação que nós também queremos o mesmo. Se quisermos algo temos que o saber conquistar. Não podemos continuar a mendigar, meus irmãos e minhas irmãs.

Segundo sapato:
a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho
Nunca ou quase nunca se vê o êxito como resultado do esforço, do trabalho como um investimento a longo prazo. As causas do que nos sucede (de bom ou mau) são atribuídas a forças invisíveis que comandam o destino.

Terceiro sapato:
O preconceito de quem critica é um inimigo

Quarto sapato:
a ideia que mudar as palavras muda a realidade


Sou de um tempo em que o que éramos era medido pelo que fazíamos. Hoje o que somos é medido pelo espetáculo que fazemos de nós mesmos, pelo modo como nos colocamos na montra. O CV, o cartão de visitas cheio de requintes e títulos, a bibliografia de publicações que quase ninguém leu, tudo isso parece sugerir uma coisa: a aparência passou a valer mais do que a capacidade para fazermos coisas.


Quinto sapato -
A vergonha de ser pobre e o culto das aparências
A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre mas quem cria pobreza.
Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.


Sexto Sapato -
A passividade perante a injustiça

Sétimo sapato -
A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros
Todos os dias recebemos estranhas visitas em nossa casa. Entram por uma caixa mágica chamada televisão. Criam uma relação de virtual familiaridade. Aos poucos passamos a ser nós quem acredita estar vivendo fora, dançando nos braços de Janet Jackson. O que os vídeos e toda a sub-indústria televisiva nos vem dizer não é apenas “comprem”. Há todo um outro convite que é este: “sejam como nós”. Este apelo à imitação cai como ouro sobre azul: a vergonha em sermos quem somos é um trampolim para vestirmos esta outra máscara.
O resultado é que a produção cultural nossa se está convertendo na reprodução macaqueada da cultura dos outros. O futuro da nossa música poderá ser uma espécie de hip-hop tropical, o destino da nossa culinária poderá ser o Mac Donald’s.
Na realidade, só existe um modo de nos valorizar: é pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer. É preciso que saibamos aceitar esta condição sem complexos e sem vergonha: somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela História. Mas nós fizemos parte dessa História, fomos também empobrecidos por nós próprios. A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós.
Mas a força de superarmos a nossa condição histórica também reside dentro de nós. Saberemos como já soubemos antes conquistar certezas que somos produtores do nosso destino. Teremos mais e mais orgulho em sermos quem somos: moçambicanos construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. É por isso que vale a pena aceitarmos descalçar não só os setes mas todos os sapatos que atrasam a nossa marcha coletiva. Porque a verdade é uma: antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.

Mia Couto
texto completo em: http://www.triplov.com/letras/mia_couto/sete_sapatos1.htm

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Fazendo arte


Nunca pensei que um dia iria ter vontade de pintar alguma coisa na minha vida. Meus desenhos na época do colégio erram horríveis. Até hoje só rabisco florzinhas e casinhas. As aulas de Arte dos meus anos escolares seguiam a moda das "letras bastão". Coisa mais inútil. Cadernos e cadernos de desenho com pautas feitas pelos alunos, e depois preenchidas milhões de vezes com todas as letras do alfabeto. Uma das minhas raras lembranças de uma aula "diferente" foi na 5ª série, quando a professora propôs que espetássemos um sabonete Francis com alfinetes e lantejoulas. A obra de arte foi oferecidas às nossas mães, no dia dedicado à elas. Até hoje não posso sentir o cheiro do Francis...
Acontece que a gente muda, ufa, e há uns meses atrás resolvi que queria pintar flores numa tela. Fui à loja, comprei a tela, as tintas e pinceis. Procurei ainda uma gravura bem legal e copiei o seu contorno. Olha, nunca é tarde pra ser feliz. A pintura não ficou lá aquelas coisas, mas me deu uma alegria tão grande, que antes de terminar o trabalho eu já havia comprado outra tela.
Aí está ela. Ainda não terminei, mas com certeza farei muitas outras.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

que calor!


Eu realmente detesto calor. Não é porque tem estado muito quente nos últimos dois meses, mas sempre preferi o inverno. Passo mal, sinto enjoos e dores de cabeça conforme a temperatura vai subindo ao longo do dia e só volto a ficar bem quando a chuva do final da tarde, típica do verão, resolve cair. Infelizmente não chove todos os dias.
Tenho pensado seriamente em me mudar para uma região onde as temperaturas sejam mais amenas...

sábado, 29 de janeiro de 2011

Câncer de Mama no alvo da moda- SP Fashion Week 2011

A conduta do professor


É interessante como tem se dado tanto espaço na mídia em relação à "conduta do professor". Longe de mim cometer qualquer ato de ironia, mas a impressão que eu tenho é que de repente colocaram todos os professores em um grande muro, ou naquela sala da delegacia de polícia que a gente vê nos filmes, onde deixam uma fila de bandidos para serem identificados sem que saibam quem os examina.
Ainda ontem à noite enquanto verificava os concursos abertos no Estado de São Paulo e lia seus editais, fiz questão de salvar os salários de, por exemplo: bibliotecário da Unesp-salário INICIAL: 2.914,11; (vagas aqui no Campus de Assis); Analista de Promotoria (147 vagas)- salário INICIAL: 3.747,00. E só pra fechar,concurso para muitos professores SUBSTITUTOS por 4 anos, na Universidade de Santa Catarina: Professor Auxiliar Graduação e/ou especialização): 183,08 a HORA AULA; Assistente (Mestre): 228,82 a HORA AULA e Adjunto (Doutor): 297, 50.
Para que essas informações? É pra dizer que tudo está invertido, que a maioria dos concursos de nível médio paga entre 2.500,00 e 3.000,00 e estão esquecendo de que o professor de nível médio também come nesse país. Quer dizer que o professor não respeita os alunos e eles ficam traumatizados se lhes é cobrada uma postura de cidadãos que precisam chegar no horário? O professor é intolerante quando reclama e desabafa porque o aluno simplesmente não faz o mínimo de atividades na aula e passa o tempo rindo, ouvindo música e passeando pela sala de aula? Já é sabido que nesse país a educação não deve ser levada a sério porque o poder deve se manter nas mãos dos mesmos de sempre. Que a população seja iludida com a fala de que os professores são insensíveis e ruins ainda dá para entender, mas entre nós que lidamos com a realidade da sala de aula e das escolas públicas brasileiras? Ah, me poupe!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

está tudo bem

        Ontem estive no Hospital Amaral Carvalho em Jaú, para consulta de acompanhamento e está tudo bem. Como sempre, os dias que antecedem essa data me deixam extremamente irritada e os nervos ficam à flor da pele. Também costumo ficar mais chorona. Em compensação quando o médico diz que os exames estão OK eu sinto como se até esse momento eu estivesse em um avião procurando pouso há muito tempo por problemas de clima ou qualquer coisa assim e no instante em que vejo o sorriso do médico, o avião aterrissa em total calmaria.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Não sei mais dormir- Antonio Prata


SE O PRIMEIRO verbo do título fosse conseguir, em vez de saber, o leitor poderia achar que este pobre cronista sofre de insônia. Infelizmente, não é o caso.

Digo infelizmente porque para a insônia há mil remédios, da contagem de carneirinhos brancos às maravilhas da tarja preta, mas contra o mal que impede o descanso de minhas retinas tão fatigadas não encontro truque ou substância eficaz.

Meu problema, caro leitor, é a posição. Durante 33 anos, 2 meses e 11 dias, dormi de bruços. Um braço sob o travesseiro, o outro esticado para trás; perna direita reta, a esquerda meio dobrada, e oito horas mais tarde eu acordava, descansado e pronto para enfrentar as agruras da verticalidade, sob a inclemente gravidade de 9,8 m/s2.

Fui feliz até a manhã da última quarta, quando, ao sair da cama, senti a fisgada na lombar. Com o passar dos dias, a dor piorou, obrigando-me a consultar um ortopedista.

Após fazer algumas perguntas, o médico explicou-me, naquele tom sádico e pedagógico que os doutores usam para reprimir os hábitos do gentio inculto, que dormir de bruços era um comportamento execrável. Ao longo da noite você vai afundando no colchão, as costas envergam e as vértebras comprimem as cartilagens. Pelo que entendi, a posição em que dormia está para a coluna como o cigarro para o pulmão, o sol para a pele, o provolone à milanesa para as artérias; nos Estados Unidos, já deve até ser proibida.

A ciência aprova apenas duas maneiras de se deitar: de lado, com as pernas encolhidas, ou com a pança para cima. Não consigo acostumar-me. De costas, sinto-me como se estivesse num caixão, prestes a ser enterrado vivo. De lado é ainda pior, pois os mortos, ao menos, sabem o que fazer com os braços, e os deixam paralelos ao corpo, ou cruzados sobre a barriga, mas, quando nos colocamos na lateral, eles sobram como duas incômodas excrescências, como mastros tombados de um navio.

Faz uma semana que pergunto a conhecidos e desconhecidos como passam suas noites. Pelo que apurei, tirando os radicais, que continuam dormindo de bruços -e fumando, comendo provoleta e promovendo sacrifícios de criancinhas-, a maioria se acomoda mesmo de lado, resolvendo a questão dos braços agarrando-se a travesseiros. Confesso que tentei, mas fui incapaz de dormir assim, como uma mocinha de novela, a sofrer seus desamores.

Já estava quase me desesperando, anteontem, quando tive a alegria mesquinha de descobrir que meu querido amigo, o poeta Fabrício Corsaletti, era também viúvo recente do sono de bruços.

"E aí?! -empolguei-me, achando que ele iria me iluminar com sua contumaz sabedoria- Como você faz?!" Fabrício bocejou e disse que também estava perdido, e a única solução que lhe ocorria era desatarraxar os braços e guardá-los debaixo da cama, toda noite. Considerei a hipótese, mas a possibilidade de ter que ir ao banheiro, de madrugada, obrigou-me a descartá-la.

Pelo visto, terei de aceitar meu infortúnio. Afinal, a vida é assim mesmo, um acúmulo crescente de incômodos: primeiro te tiram do útero, depois te viram na cama e, no fim, ainda te colocam num caixão, de pança pra cima, até o fim dos tempos. Aliás, é essa a posição que adotarei, de hoje em diante. Não que seja boa para dormir, mas pelo menos já vou me acostumando.



antonioprata@uol.com.br

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Dicas preciosas

Se vc é amigo de alguém que teve ou que tem câncer: nunca, mas nunca mesmo diga: - Vc TEM que tomar uma erva maravilhosa que só cresce na Namíbia. Não é comprovada cientificamente, mas é milagrosa!!! Minha tia que morreu, tomou.- Primeiro, não TEM que nada, só se o médico deixar. E a gente não quer receita da tia que morreu!
Nada de abraços nem olhares tipo pé-na-cova. É péssimo. Só carinho sincero. Se não conseguir fique na sua, é melhor.
Se vc for marido, ex-marido, namorado, ex-namorado, amante, ex-amante ou simplesmente um macho por perto, elogie. Diga que ela está bonita de lenço, que a carequinha é bonitinha, que a magreza é legal (bem, se ela estiver gordinha, acho melhor ficar calado). É muito bom ouvir, só não exagere, a gente desconfia. Elogios de amigos gays ou de amigas são bons, mas não surtem o mesmo efeito.
Não se ofenda se a gente não retornar a ligação, nem tenha ciúme de outra amiga!
Visita, só com hora marcada.
Ofereça-se para: fazer compras, ir ao banco, levar o cachorro para passear, passear com o filho, lavar a louça. Tem dia que a gente não consegue fazer nada disso.
Agora o mais importante: Jamais insinue coisas do tipo “ vc deixou a doença entrar”, “ o que vc fez para ficar doente”, “câncer é cabeça ruim”. EU NÃO FIZ NADA! Além de todo sofrimento, tem gente que acha que a culpa é nossa! Ainda tenho que me sentir culpada? A ciência ainda não sabe o porquê de algumas pessoas ficarem doentes e outras não.
Márcia Cabrita

Compreensão


               Como é difícil para os seres humanos compreenderem que seus semelhantes podem pensar diferente deles. Como é fácil para esses mesmos seres humanos julgarem atos ou pensamentos com dureza e precipitação. Curiosamente quem mais usa o discurso de bondade e amor ao próximo é quem mais costuma  usar de intolerância quando solicitado.
                Alguns não têm ideia da tristeza que causam nos corações de quem dizem amar. Não lhes importa  se machucam pessoas muito próximas. Colocar-se no lugar do outro parece tão certo e tão fácil de entender, entretanto a maldade cega e  a ignorância destrói. Deve ser porque no fundo somos egoístas e horrorosos por dentro. Usamos máscaras, maquiagem barata que ao primeiro sinal de suor escorrega pelo corpo. Então toda a poesia do mundo serve para isso, para disfarçar o sentimento de víbora que cada um tráz em si mesmo.

Just another day









Outro Dia


- Paul McCartney


Todos os dias ela toma banho pela manhã,molha seu cabelo
Enrola-se em uma toalha,e se dirige para a cadeira no quarto
É só mais um dia
Veste suas meias,calça seus sapatos
Põe a mão no bolso de sua capa de chuva
É só mais um dia
No escritório, onde papéis se amontoam,ela dá um tempo
Bebe outro café,e tem dificuldade de se manter acordada
É só mais um dia
Du du du du du du,é só mais um dia
Tão triste,tão triste,às vezes ela se sente tão triste
Sozinha em seu apartamento ela moraria
Até que o homem dos seus sonhos viesse quebrar o encanto
Oh, Fique,não saia por aí
E ele vem,e ele fica,mas vai embora no dia seguinte
Tão triste,às vezes ela se sente tão triste
Enquanto envia mais uma carta ao som das cinco
As pessoas se recolhem a sua volta,e ela sente dificuldade em manter-se viva
É só mais um dia
Tão triste,tão triste,às vezes ela se sente tão triste
Sozinha em seu apartamento ela moraria
Até que o homem dos seus sonhos viesse quebrar o encanto
Oh, Fique,não saia por aí
E ele vem,e ele fica,mas vai embora no dia seguinte
Tão triste,às vezes ela se sente tão triste
Todos os dias ela toma banho pela manhã,molha seu cabelo
Enrola-se em uma toalha,e se dirige para a cadeira no quarto
É só mais um dia
Veste suas meias, calça seus sapatos
Põe a mão no bolso de sua capa de chuva
É só mais um dia
Du du du du du du,é só mais um dia
Du du du du du du,é só mais um dia

domingo, 23 de janeiro de 2011

pausa

          Pausa. Uma pausa pra dizer que hoje é domingo, que o dia amanheceu lindo, que é muito bom receber visita de quem a gente gosta e que mora longe.  Esse final de semana estou recebendo a visita da minha amiga e comadre Sandra. Passamos boa parte do tempo jogando conversa fora, rindo, chorando e lembrando da nossa adolescência.
         Dia mais gostoso esse, embora o calor esteja de "estourar passarinhos." Fazer almoço enquanto tomamos uma cervejinha, ficar deitadas em frente ao ventilador sem pressa e sem preocupação, cuidar do cachorrinho e ver a Gabi se esborrachando de rir com nossas expressões fora de moda é tudo de bom.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Eu e o câncer de mama- Parte III

          Naquele 5 de dezembro de 2008 eu cheguei em casa, joguei um colchão no chão do meu quarto e me deitei. Não fossem os momentos em que eu precisava fingir que tudo estava bem, era lá que eu ficava e foi lá que permaneci  quase imóvel por uma semana. Eu não queria mais levantar daquele lugar, porque isso significava que eu teria de enfrentar o câncer.
           Entretanto a minha filha mais velha viajaria no outro dia de manhã para fazer vestibular em Londrina e na minha cabeça, de nada iria adiantar deixá-la nervosa com o resultado dos meus exames. Adiei por alguns dias a notícia pra ela e agora o que me preocupava era minha mãe. Eu pensava: "como posso dar mais esse sofrimento pra minha mãe?" Eu não suportava a ideia de vê-la triste e sofrendo por minha causa.
          Minha mãe me ligou na tarde de sexta e eu a tranquilizei. Disse que talvez tivesse de fazer uma cirurgia, coisa tranquila. Somente no sábado, às  três horas  horas da tarde, quando minha mãe veio à minha casa, eu fui dando a notícia em doses homeopáticas. Disse que havia uma ligeira probabilidade de eu ter de tirar a  mama, "por prevenção" somente. Não via a hora de ela ir embora, pra eu poder voltar pro meu colchão. Fazia um calor daqueles. Eu não sentia fome, eu não tinha sono, e tremia de ansiedade.
            Acontece que as mães não são bobas e diante da minha conversa me pediu pra procurar uma 2ª opinião, um outro médico, quem sabe em Jaú porque sempre foi centro de referência. Deus sabe com qual dificuldade eu liguei para a Elaine, irmã da minha amiga Vera, que meses antes descobrira um câncer de pulmão e na época fazia quimioterapia em Jaú. Ela já disparou um "não faça nada por aqui, vai pra fora da cidade. Os médicos daqui não sabem nada. Segunda-feira de manhã estarei aí na sua casa."
          O final de semana foi abafado, lento e um dos piores da minha vida. Na segunda de manhã a Elaine veio conforme prometera. Fomos à Associação do Câncer e ela agendou uma consulta pra mim para a sexta-feira daquela semana com um dos mais conhecidos especialistas em câncer de mama de Jaú, Dr Aírton Joioso.
            Diante de meus exames o Dr. Aírton falou: "infelizmente você  tem câncer. Primeiro é necessário que você saiba que não tem culpa disso. Outra coisa, faremos tudo o que for preciso pra cuidar de você. Hoje em dia a medicina está muito avançada e  cerca 84 % dos pacientes de CA de mama depois do tratamento levam uma vida normal. Ele disse ainda que eu teria de fazer mais alguns exames e que minha cirurgia só poderia ser realizada a partir de janeiro porque em dezembro no Hospital Amaral Carvalho o centro cirúrgico fechava no dia 15. Gostei muito do médico.
            Nem preciso dizer que o Natal e o Ano Novo foram extrememamente dolorosos. No meu trabalho, fui me despedir ainda no começo de dezembro e explicar que eu estava a partir daquele momento cuidando da minha saúde. Meus amigos me olhavam e choravam. Todos que sabiam do câncer me olhavam com cara de pena e muitos falavam coisas muito desencorajantes, pensando estarem fazendo o contrário. Exemplo: "Minha tia morreu de câncer de mama, mas não se preocupe! Ela não se cuidou direito..." (?)
            Infelizmente, não sei se por causa da punção ou devido à minha cabeça, o nódulo começou a doer. Não dava para esquecê-lo um só minuto.
            No dia 29 de dezembro fui para Presidente Prudente e fiz a cintilografia óssea. Em 6 d ejaneiro voltei para Jaú. Aí então tive noção do tamanho do perigo que estava correndo quando o médico abriu os exames e comentou; "agora sim podemos tomar as medidas para o tratamento. Agora que vejo que você não tem mais nada em NENHUM pedaço do seu corpo." Até então eu não tinha plena consciência de que poderia estar com outros focos da doença. Mas não estava. O médico prosseguiu: "A primeira coisa a fazer é a cirurgia. Não é aconselhado que se faça a reconstrução da mama imediatamente." E continuou explicando sobre a cirurgia.
             Entre essa consulta e a cirurgia, que teve de ser paga porque pelo SUS só havia vaga para o final de abril, passaram-se 35 dias.

Eu e o câncer de mama- Parte II

          "A semelhança de muitas mulheres com quem conversei, fui forçada a aprender que preciso me colocar em primeiro lugar. Tenho de me respeitar, tenho de dizer "não" para as coisas que não quero fazer. Para mim, esse é um exercício completamente novo. Sempre tentei agradar os outros. Acredito que o seio é um símblo de alimento, de cuidado. Como outras mulheres, me tornei especialista na arte de dar mais importância aos desejos dos outros que aos meus." Sherryl Crow           
               A cantora norte-americana Sherryl Crow teve câncer de mama em 2006, aos 48 anos. Seu relato faz parte do livro "Câncer- e agora? Como lutar contra a doença sem deixar a vida de lado", de Kris Carr, que reuniu de maneira muito criativa as experiências de aproximadamente 40 mulheres que tiveram câncer nos Estados Unidos nos últimos anos- a maioria jovem, bem sucedida e bem informada. Conforme as mulheres vão contando suas histórias dicas preciosas de "sobrevivência" durante o tratamento do câncer são apresentadas. O livro ainda conta com grande variedade de fotos, endereços, sites, receitas, enfim, trata-se de um manual indispensável para quem passa pelo problema. A própria autora, Kris, tem um câncer raro no fígado desde 2003. Além do livro fez um documentário premiado em que faz uma viagem pelos Estados Unidos, abordando seu momento particular de portadora de câncer.
            Voltando ao depoimento de Sherryl Crow, ele foi citado porque eu sempre fui exatamente como ela. Venho tentando melhorar, mas não é nada fácil. O câncer exige uma mudança de comportamento. É como se recebêssemos um cartão amarelo em um jogo de futebol e soubéssemos que daquele momento em diante, nossos lances teriam de ser cuidadosamente planejados, medidos, porque qualquer movimento precipitado poderia causar nossa expulsão do jogo.
            Então naquela sexta-feira, 5 de dezembro de 2008, voltando pela estrada de Palmital a Assis, com todas aquelas nuvens cinza escuro em um céu que anunciava chuva a qualquer instante, por mais que as lágrimas viessem quando me lembrava particularmente das minhas filhas, algum dispositivo ou substância química do meu cérebro foi liberado e eu entendi: "agora é você em primeiro lugar." É claro que esse processo foi doloroso, que eu me senti rasgando uma mata fechada no peito, pisando num formigueiro e prestes a colocar minhas mãos numa cascavel no cipó ao lado.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Eu e o câncer de mama- Parte I


          Pacientes com câncer sofrem o mesmo tipo de transtorno de estresse pós-traumático que acomete veteranos de guerra e vítimas de estupro. Quem afirma isso é o Dr. Smith, médico e psiquiatra norte-americano, citado no livro  autobiográfico "Câncer- e agora? Como lutar contra a doença sem deixar a vida de lado", de Kris Carr. Deve ter sido por isso que levei tanto tempo para poder escrever sobre a minha experiência.
           Gosto muito da comparação da atriz Drica Moraes se referindo ao tratamento do câncer. Ela disse que a gente se sente um réptil. Até agora não achei definição melhor para o paciente de câncer.
           Em agosto de 2008, falando ao telefone, senti um carocinho na mama esquerda. Como já fazia um ano desde a última mamografia, resolvi marcar outra. Só tinha vaga para o início de setembro. O médico leu o resultado do exame e me pediu uma ultrassonografia. "Não é nada para se preocupar. É costume completar um exame com outro." O resultado pedia investigação, mas eu não estava nervosa. Eu já habia feito várias cirurgias, inclusive retirado um CA de tireóide em 1999, sem maiores consequências. Encaminhada ao  mastologista, esse marcou um exame de punção. Não senti absolutamente nenhuma dor durante o procedimento. Então, no dia 5 de dezembro, eu teria retorno para saber o resultado, às 11 h da manhã. Algumas amigas do trabalho queriam me acompanhar, mas eu fugi delas e fui sozinha. Tinha alguma coisa me falando que se eu tivesse uma notícia ruim, dali para frente eu seguiria sozinha.
            O médico abriu o exame na minha frente e fez cara de choro. Disse que infelizmente eu tinha câncer, que o nódulo media 2,5 cm,  que eu teria de tirar a mama toda, que ia marcar a cirurgia o mais rápido possível e queria conversar com toda a minha família urgente. Eu fui desabando por dentro. A história de perder o chão, do céu ficar preto e branco é toda verdadeira. Rapidamente o doutor foi assinando a papelada para eu levar no hospital para que o IAMSPE autorizasse a cirurgia enquanto eu tentava arrumar coragem para sair dali.
             Mil coisas passaram pela minha cabeça do caminho entre o consultório médico e o hospital. Chorei largado, pensei nas minhas filhas, na minha mãe, em quanto tempo eu teria de vida, no pavor que seria passar por uma cirurgia dessas, etc. Chegando no hospital, tentei segurar o choro e perguntei pra recepcionista quantas cirurgias desse tipo eles faziam  (o hospital era em uma cidade vizinha, pequena). A moça me falou que era raro eles realizarem cirurgia de retirada de mama e eu tive até um calafrio. Mesmo assim entreguei a papelada, peguei as autorizações para os exames de investigação- cintilografia óssea, ultrassonografia do abdômem, etc- e ainda podia ser pior! Eu poderia estar com câncer em outras partes do organismo...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

As coisas mais simples

                                                     

              As férias são um período do ano em que, além de descansar, costumo organizar minhas coisas pois ao longo do ano, a bagunça vai se fazendo e nunca dá tempo de arrumar.  Como nas férias de janeiro de 2009 eu estava em Jaú e em 2010 eu estivesse às voltas com o final do tratamento de radioterapia e por isso mole e sem forças pra estar de pé, essas são praticamente as minhas primeiras férias em três anos. Então, o tempo é curto para tantas estrepolias!
               A primeira delas aqui em casa ocorreu na quarta-feira passada. Intrigada com o desbotamento dos tijolinhos do meu quintal e com medo de que eles pudessem ficar verdes, por causa das chuvas de janeiro, resolvi pintá-los. Ah, que alegria! O problema é que são aproximadamente 50 metros quadrados deles e o cheiro da tinta é forte. Comecei a pintar com um pincel pequeno. Um por um. Sentei no chão porque era maisa confortável. Bem, o serviço não rendia e então tive a ideia de pintar com uma vassoura. Aí sim! Mas eu já tinha ficado horas em contato com aquele cheiro e juntando o calor, comecei a enjoar.  Entrei, tomei um banho e ai que vontade de vomitar... foi o que fiz. Pensa que foi uma vez só? Não, não foi. Passei a noite do sofá para o banheiro e só me reestabeleci no outro dia, depois de um Dramin.
              Ontem foi a vez de organizar meus CDs e DVDs, outra delícia. Primeiro fui ao centro e comprei um nova porta-CDs porque eles estavam amontoados pelos cantos, sem casinha pra morar. E que surpresa boa descobrir que eu tinha um CD novinho do Nando Reis que eu simplesmente havia esquecido que tinha! Acho que ganhei do Artur no meu aniversário. Ouvi poucas vezes e guardei. Ah, o Nando Reis! Ele faz parte da história da minha família, veja só.  Eu nem me dava conta, mas na viagem que fizemos esses dias para Florianópolis, lá pelas tantas minhas filhas me disseram: "Mãe, escolhe um CD." E lá fui eu na caixinha e acabei colocando "Para quando o arco íris encontrar o pode de ouro". Já estava na terceira ou quarta música, que começou a dar uma puladinha, quando a Gabi falou: "Mãe, pelo amor de Deus, não dá pra por outro CD? Desde que eu era neném que eu ouço essas músicas!"
               Não que ela não goste, afinal cantou junto e sabe de cor, mas eu tenho que confessar que ouço muito os CDs do Nando Reis. É a trilha sonora da minha casa. Na viagem ou organizando os CDs, vi, ouvi e revivi momentos e épocas da minha vida e das minhas filhas. Zeca Baleiro, Ana Carolina, Skank e Frejat são alguns dos nomes mais ouvidos  por aqui também.
               Hum... na próxima semana quero cuidar das minhas plantinhas. Já sinto até um ânimo diferente. É como a água na boca que dá quando a gente vê uma comida que adora. Já estou planejando vistar a floricultura da sogra da Eva para comprar umas mudinhas de begônias e cravos. Ai, que loucura!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Floripa 2011

     Eu sou uma pessoa que adora ficar em casa. Gosto tanto que isso me causa problemas. Os amigos pensam que não gosto mais deles porque não os visito. As filhas acham que estou depressiva ou que fiquei velha antes do tempo. Então, muitas vezes me obrigo a sair de casa porque sei que faz bem. A mim e aos outros. Simplesmente eu fico muito tempo longe de casa por causa do trabalho. Quando chego, gosto de regar minhas plantinhas, fazer uma comidinha, ler um livro ou simplesmente me jogar no sofá e ligar a TV.
     Mas, uma vez por ano tudo muda. Eu gosto de ver o mar. É como se o meu corpo tivesse necessidade daquela água. Eu sou taurina. Touro é do elemento Terra. Costumo dizer que a terra precisa de água pra gerar vida, senão seca. Assim, planejo meu passeio anual com bastante antecedência. Pesquiso sites, google, envio e-mails para hoteis e faço contatos nas comunidades do Orkut dos lugares onde quero ir.
     Outro motivo pelo qual eu escolho viajar é a educação das minhas filhas. Tento seguir o exemplo daquela que foi dada. Eu e meus pais fizemos poucas e modestas viagens. Lembro de uma vez que viajamos porque meus pais seriam padrinhos de casamento em São Paulo. Foi uma viagem curta, mas os primos de lá nos levaram a Santos. Eu tinha 14 anos e foi a primeira vez que vi o mar. Em outra oportunidade fui com meu pai à Fóz do Iguaçu. Depois ao Rio de Janeiro. Viagens curtas, às cidades da região fizemos muitas. Meu pai era um pequeno pecuarista e vivia atrás de boas oportunidades de negócio. Guardo e cuido com extremo carinho das lembranças dessas viagens: dois álbuns de fotos preciosos demais para mim. Deus foi tão generoso, que na ocasião em que perdi minha casa em um incêndio, há dezoito anos, o único bem que resgatei foi minha caixa de fotos. Quero que minhas filhas tenham as suas memórias de viagens, que aprendam a cultura dos lugares onde visitam, que conversem com os moradores e nativos das cidades e levem essas experiências para a vida.
         O problema das viagens é que elas acostumam a gente mal. Já estou querendo fazer outra...
   
    

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Parabéns, minha Polaka!

... tudo começou qdo pensei assim: "Agora vou ter um nenenzinho só pra mim!" (pq sua irmã foi uma "insistência" do seu pai. Não q eu não quisesse, mas não queria naquela época, pq não tinha dinheiro, nem emprego e queria dar uma vida boa pra ela). Então, no começo, achei que vc fosse um menininho. Ía se chamar Leonardo ou Patrick...KKKKK!!!!


bem, isso vc já sabe: na TV passava O Rei do Gado, e eu fiquei enfeitiçada pelos olhos do Fábio Assunção. Tb tive vontade de comer pêssego. E "comia" gelo. O dia todo. Sentia necessidade. Essa eu tenho vergolha, mas fazer o quê... tb mastiguei um giz!!! Glup! Mas o gosto era horrível!
então íamos eu e vc, pesadíssimas, todas as manhãs para Maracaí dar aula. Subíamos as escadas da escola Mendonça, a passos lentos, ao som dos gritos dos alunos.
vc sempre foi folgada e espaçosa. Acho q se esticava na minha barriga e chegava a doer o estômago, a coluna, as costelas, enfim, tudo.
nasceu numa segunda-feira quente e chuvosa (igual ao dia de hj). Quando chorou e eu te vi pela primeira vez, notei que era rosada, ou melhor: vermelha. chata e esfomeada desde o 1º dia. Passou a noite chorando DE FOME! A enfermeira não via a hora de te levar pra mim (5 da manhã) pra vc poder mamar.
e hj, como disse a sua irmã, vc é essa menina EDUCADA E GENTIL, CADA DIA MAIS MEIGA...
sorte a sua é que as mães geralmente amam seus filhos incondicionalmente, ou seja: independente de como são. (...)
brincadeirinha!!!
coisa mais rica e fofa da mamys!!!!!! TE AMOOOO MUITO, MUITO, MUITO!! Nunca as palavras conseguirão expressar, pq é muito grande o meu amor...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Peace and Love



Como já disse, esse ano vou escrever mais. E também vou realizar alguns sonhos. Nada como o mês de janeiro para levantar o astral e dar uma forcinha para a disposição.
É sério! Estou sentido ótimas vibrações para 2011. O ano de 2009 foi pavoroso com aquelas sessões de quimio, a cirurgia, a rádio, argh! Pra dizer a verdade, desde o final de 2008 a vida não tem sido fácil. Já é tempo de paz!
Quero um ano tranquilo, quero minhas filhas felizes e bem resolvidas. Quero meu trabalho bem feito, quero emagrecer também pra poder fazer a cirurgia. Quero finalmente fazer a viagem para os EUA, reformar minha cozinha e quem sabe, a piscina. Mas acima de tudo, quero saúde.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Decisões de ano novo

         
 Hoje é dia 1º de janeiro de 2011. Eu decidi que vou escrever mais esse ano. Se eu tivesse escrito mais ao longo dos anos, teria muitas coisas pra lembrar. Não vai ser assim de agora em diante.
            Decidi que hoje escreverei sobre as certezas que um dia pensei que tivesse. Aos 20 e poucos anos achava que a vida acabaria aos 30. Então já tinha decidido: quando chegasse lá, iria cortar meu cabelo e parar de usar shorts. Já fiz 44 e continuo usando shorts. O cabelo tá curto por causa da químioterapia, mas não penso em mantê-lo curto por muito tempo. Às vezes me pego pensando que a vida vai ficar bem limitada aos 50. Quanta bobagem... minha avó, que fez 85, disse que até os 60 a vida é boa. Depois começam as fraquezas nas pernas, o desânimo e aquela cara no espelho toda enrugada que não parce ter nada a ver com os pensamentos da dona.
            Como tive câncer há dois anos, estou em período de remissão. Isso quer dizer que, pelo menos nos próximos 3 anos, estarei de 6 em 6 meses fazendo alguns exames muito chatos pra provar que a doença não voltou. Isso é tenebroso! Os instantes que antecedem a abertura do envelope com o resultado dos tais exames são longos. Dá uma agonia! É como se um fantasma vivesse me acompanhando, me assombrando. Só por isso, a vida já tem outro valor...
muitos anos de vida!!! 


Eu tive uma doença grave. Fiquei boa, mas não posso ficar totalmente segura que estou curada. Muita pessoas me perguntam o que mudou, o que eu aprendi com essa experiência, se eu vejo a vida com outros olhos. A impressão que tenho é que alguns pensam que quem flertou com a morte torna-se um ser sem defeitos, ou seja, que tudo passe a ser maravilhoso e sem defeitos! Nada disso, continuo a mesma! Se eu aprendi alguma coisa, preferiria continuar na ignorância.


Mas outro dia estava pensando que passei a a nutrir bons sentimentos a coisas que antes tinha horror. Tipo: pelanca em baixo do braço, osteoporose, geriatras, cabelo do Walmor Chagas, bunda mole sem volta, dentadura, chamar alguém com carinho de "meu velho". etc.


É... algo mudou, comecei a gostar dessas coisas, se é que vcs me entendem...

Márcia Cabrita

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