Vanguart

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o reino escolar


Faz pouco tempo que a pasta da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo foi ocupada por um professor que, em suas palestras, propunha a pedagogia do afeto. Era preciso que professores acolhessem os alunos de um modo semelhante às pregações de Jesus Cristo nos Evangelhos. Só faltava ter de alterar o ensinamento do Filho de Deus para “deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o reino escolar”. De fato, o ambiente escolar hoje é, mais do que nunca, não apenas das crianças, mas também de adolescentes e jovens. Isso seria ótimo se esse “reino” fosse lugar de constante ensino e aprendizagem. O que houve, na verdade, foi uma distorção de valores e incumbências, pois, infelizmente, muitos jovens vão à escola com o último interesse em estudar. Compete ao professor hoje dar atenção ao aluno para que ele não se sinta excluído do “reino escolar”, mas isso não quer dizer necessariamente que o educador tenha de ensinar intensa e entusiasticamente os conteúdos aos seus estudantes. O professor tem de ser paciente com a realidade do aluno; o professor tem de compreender as dificuldades por que passam estudantes e sua família; o professor não pode exigir demais dos alunos, senão eles podem se desanimar com os estudos e abandonar a escola; o professor tem de concordar com as todas as atitudes dos que estão ali para estudar, respeitando a vontade dos alunos sobre o que ensinar, como ensinar, quando ensinar, para que ensinar e se realmente é preciso ensinar; o professor tem de compreender que o aluno tem o direito de aprender quando lhe aprouver, mas o educador deve saber que ele tem a obrigação de ensinar sempre, procurando motivar o estudante para o real significado dos conteúdos escolares; o professor tem de ser assistencialista, pois já não há mais espaço nem época para aquele profissional que apenas preparava aulas, corrigia provas, pesquisava materiais para enriquecimento curricular e realizava tarefas burocráticas (preencher diários, papeletas, ofícios exclusivos da secretaria e da direção de escola etc.); o professor não precisa ter vida própria mas... DEVE SER AMIGO DOS SEUS ALUNOS. Hipocrisia é bobagem... Para ser sincero, não é essa a concepção filosófica de amizade na sala de aula que Aristóteles propôs. De acordo com o filósofo, a amizade se sobrepõe à justiça, já que aquela estabelece a concórdia para a convivência e a manutenção de um mundo mais justo. Para que a amizade seja verdadeira, é necessário preservar princípios éticos, morais e cidadãos. Quando se percebe a ética no ambiente escolar, nota-se que alunos têm confiança em seus professores e ambos estão em constante diálogo. Nesse caso, regras são estabelecidas facilmente, numa convivência diária e democrática. Essa relação dialógica de confiança não envolve apenas professores e alunos, mas os familiares destes e todos os demais envolvidos no processo educacional, incluindo funcionários e, principalmente, diretores e supervisores (já que estes são, antes de assumirem cargos meramente administrativos, professores, e devem se lembrar de que também ocupam cargos pedagógicos). Somente com o fortalecimento desses laços de amizade é que alunos entenderão a importância de que, para sua aprendizagem ser bem-sucedida, é preciso agirem com responsabilidade, compromisso e motivação própria para seu progresso e superação de seu estado atual, vislumbrando - segundo Kant - uma vida melhor. E eles necessitam da ajuda de seus professores e os demais envolvidos na sua vida escolar, que somente pode ser realizada se houver não apenas uma “pedagogia do afeto”, mas, principalmente, uma pedagogia da amizade que abranja a ética, o respeito, a honestidade e o desejo constante pelo saber. Ora, “saber é poder”, segundo Francis Bacon, e professores e alunos têm esse poder...

ARTUR GERALDO PAIS
Professor de Inglês, Português e Espanhol (e amigo!)
EE CAROLINA FRANCINI BURALI

Tempo Rei




Você já teve a sensação de que um fato ocorrido há muitos anos às vezes parece ter ser dado no mês passado? Já viu fotos antigas suas e ficou horrorizado com o corte de cabelo ou com as roupas fora de moda e constatou que muitos anos já se passaram? Pois é. O tempo passa. O tempo voa, já dizia uma propaganda antiga de um banco que nem existe mais.

Minha avó tem 85 anos mas não se reconhece no espelho. Alegre e brincalhona, ela me diz: “Eu não vi o tempo passar. Eu sou a mesma mocinha de 20 anos que um dia eu fui. É assim que me sinto por dentro.”

“Não se iluda, tudo permanecerá do jeito que tem sido, transcorrendo...” canta Gilberto Gil em sua “Tempo Rei”. Talvez o tempo seja mesmo um senhor cheio de majestade. Diante dele todas as formas de poder se curvam.

Os gregos antigos tinham duas palavras para o tempo: chronos e kairos. Enquanto o primeiro refere-se ao tempo cronológico (ou sequencial) que pode ser medido, esse último significa "o momento certo" ou "oportuno": um momento indeterminado no tempo em que algo especial acontece.

E são os momentos especiais que ficam gravados na memória. Não é à toa que uma das frases mais ouvidas é: “Ah, no meu tempo é que era bom!” . Os seres humanos criaram rituais para marcar o tempo bom, o tempo de felicidade. Tudo que for possível para que esse tempo dure é valorizado. Fotos, filmes, símbolos e a velha e eficaz conversa entre amigos, de preferência em festinhas de confraternização.

Uma situação curiosa ocorre quando encontramos pessoas que não vemos há muito tempo, mas que fizeram parte da nossa vida. Ex-colegas de escola, por exemplo. Será que a fulana está mais velha do que eu? Se estamos cercados por amigos, é certo que nos tranquilizam. Muito mais velha do que você! Mais tarde, sozinhas com nosso pensamento, temos um calafrio só de imaginar que devemos ter passado a mesma imagem pra outra pessoa. Estamos tão velhos quanto ela.

Não se iludam

Não me iludo

Tudo agora mesmo

Pode estar por um segundo...(Gilberto Gil)

Temos medo de ser como são quase todos: medíocres

ADORO O teatro. Brinquei de teatro na juventude. Esta foi minha primeira traição à medicina. Mas já tinha um filho e já era casado. É quase impossível fazer teatro e ter uma vida familiar normal no Brasil, dadas as condições em que trabalham os profissionais envolvidos com o teatro.





Isso deveria ser objeto de preocupação de todos, mas nossos oficiais da educação e da cultura se ocupam com coisas menores, como a burocracia das produtividades e das quantidades que sempre atrapalha a criação efetiva do que importa.


Aliás, a avassaladora tendência fascista de nossa época deveria ceder lugar a projetos educacionais verdadeiros. Mas não. Em lugar de projetos que eduquem os mais jovens para a condição humana, vivemos sob a tutela de burocratas que inventam todo dia modos de controlar nossas vidas, o que comemos, o que sentimos e o que pensamos, chegando ao cúmulo de querer “roubar” os direitos autorais dos outros, usurpando tudo em nome da “justiça social” -belo conceito, mas que serve a todo tipo de invasão da propriedade alheia e mau-caratismo ideológico. E vai piorar.


Que tal se levássemos o teatro a todas as escolas, tornando aulas de interpretação, dramaturgia e direção teatral parte do currículo obrigatório dos alunos?


O teatro educa nossa alma e nosso corpo, nos ensinando palavras que dão nome aos nossos espantos, medos e alegrias. Fazendo-nos debruçar sobre o humano em nós, este mesmo humano que vive acuado na banalidade das horas.


Poder educar com Shakespeare, Tchekhov, Sófocles, Nelson Rodrigues, entre outros, nos levaria a anos luz de distância da burocracia das produtividades e das quantidades que contamina as escolas, afogando-as na quase total insignificância espiritual.


Mas, sei que divago, sonhando com um mundo onde a educação não seria o terreno baldio que é. Habitado por todo tipo de utopias falsas e pequenos egos.


Recentemente assisti a um espetáculo no Teatro da Cultura Inglesa, “ Piscina (sem água)" do britânico Mark Ravenhill, vencedor do 14º Cultura Inglesa Festival. Este espetáculo deveria ser levado a toda parte porque fala de algo essencial: a ambiguidade e a mediocridade humanas travestidas de bons sentimentos.


O enredo trata de um grupo de amigos artistas no qual uma delas é infinitamente superior aos outros. Fica rica e famosa com sua arte. O ódio ao sucesso da “amiga” os leva à loucura. Mas este ódio, escondido atrás de palavras doces, fala da dificuldade que temos de encarar o óbvio: nem todos nós temos talento e a maioria de nós é e sempre foi medíocre.


Voltando ao tema da educação, ao contrário do que tentam dizer muitos especialistas em educação, os mais jovens, sim, aguentam que falemos coisas assim pra eles.


Justamente porque são mais jovens, são menos infectados por esta doença mortal chamada medo da vida (que, cá entre nós, dá medo mesmo). Eles não precisam que fiquemos mentindo sobre algo que, no fundo e no silêncio de si mesmos, sabem: temos medo de ser medíocres e de que nossa vida seja um atestado definitivo de nossa insignificância. E quase sempre é.


A peça fala de arte e de amizade, mas vai muito além. A arte serve apenas como “desculpa” para falar do ressentimento da maioria contra a beleza da amiga “abençoada” (termo do próprio texto pra se referir a ela).


Fosse a “abençoada” uma engenheira numa fábrica de foguetes, o problema seria o mesmo: ressentimento e inveja por parte dos colegas medíocres. Em épocas como a nossa, na qual a sensibilidade dos ressentidos é vista como “direito à igualdade”, este texto deveria ser gritado em voz alta em todos os cantos do mundo.


Ao final da peça, a “abençoada” descobre o que os “amigos” fazem pelas suas costas (não vou dizer o que eles fazem, trate de ir ver a peça). Ela grita: “Vocês são uns medíocres!” Ouvir isso é um “alívio”, diz um dos medíocres.


Alívio para uma alma que derrete de medo diante do fracasso de sua vida. A fala da “abençoada” abre para seus “amigos” a chance de viver de outra forma. A sinceridade pode curar um covarde. Experimente um dia.






Artigo publicado na Folha de São Paulo, segunda-feira, 23 de agosto de 2010.


** Luis Felipe Pondé é filósofo e psicanalista, doutorado em Filosofia pela USP/Universidade de Paris e pós-doutorado em Epistemologia pela Universidade de Tel Aviv. Atuou como professor convidado nas universidades de Marburg (Alemanha) e de Sevilha (Espanha). Atualmente é professor do programa de pós-graduação em Ciências da Religião e do Departamento de Teologia da PUC- SP, da Faculdade de Comunicação da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado) e professor convidado da pós-graduação de ensino em ciências da saúde da Universidade Federal de São Paulo e da Casa do Saber.


Autor, entre outros títulos, de ” O Homem Insuficiente “, ” Crítica e Profecia “, ” Filosofia da Religião em Dostoievski”, ” Conhecimento na Desgraça ” e ” Ensaios de Filosofia da Religião”. É articulista da Folha de S. Paulo, com coluna semanal às segundas-feiras.