Vanguart

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Jogo da Amarelinha - Capítulo 7



Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.


Júlio Cortázar

domingo, 5 de setembro de 2010

Deve se duvidar de tudo


Se alguém lhe perguntasse "O que você conhece?", você poderia pensar em uma porção de coisas, a maioria delas adquiridas em sua experiência cotidiana. Mas se a pessoa insistisse e perguntasse "Algo do que você sabe é realmente verdade? Apostaria sua vida nisso?", essas questões complicariam um bocado as coisas.

Eu, por exemplo, poderia dizer que tenho certeza que sou filho dos meus pais, mas talvez eu tivesse sido adotado ou trocado na maternidade e estar enganado a esse respeito. Poderia ainda estar enganado sobre uma série de outras coisas que até então julgava certas. E se reparar direito, tudo o que eu tenho são crenças, algumas até muito razoáveis, mas nada de que eu possa dizer que é uma verdade irrefutável. Percebo, então, que me falta um parâmetro para examinar as minhas crenças e verificar quais são realmente certas e quais são falsas.

Condições universais de validade

Durante a história da filosofia, vários foram os filósofos que tentaram estabelecer as condições para que algo fosse tomado como absolutamente verdadeiro, isto é, uma verdade que independesse de fatores circunstanciais e que fosse algo que não fosse verdadeiro para mim ou para um grupo de pessoas, mas para todos os seres racionais.

Você deve estar cansado de ver por aí grupos de pessoas com crenças estranhas, que dizem que eles estão certos e todos os outros enganados. Nesse caso, como decidir quem está certo? Votando? Mas se a maioria estiver errada e o pequeno grupo estiver certo, nunca conheceremos a verdade porque eles sempre perderão nas votações. É preciso que se trate de uma verdade universal, isto é, válida para todos, tanto para a maioria quanto para as minorias. Portanto, o que os filósofos investigam são as condições universais de validade, aquelas condições que independem das opiniões particulares que eu ou você possamos ter.

Ceticismo

Na investigação sobre as condições de validade do nosso conhecimento um grupo de filósofos merece destaque: os céticos. O termo cético vem da palavra grega skepsis, que significa "exame". Atualmente, dizemos que uma pessoa cética é alguém que não acredita em nada, mas não é bem assim. Um filósofo cético é aquele que coloca suas crenças e as dos outros sob exame, a fim de verificar se elas são realmente dignas de crédito ou não.

Pirro de Elis (360-275 a.C.) é considerado o fundador do ceticismo. Segundo ele, não podemos ter posições definitivas sobre determinado assunto, pois mesmo pessoas muito sábias podem ter posições absolutamente opostas sobre um mesmo tema e ótimos argumentos para fundamentar suas posições. Nesse caso, Pirro nos aconselha a suspensão do juízo e a mantermos nossa mente tranqüila (ataraxia). Ao invés de enfrentarmos o desgaste de acalorados debates que não produzirão certeza alguma, devemos manter silêncio (apraxia) e preservar uma atitude de suspeita diante de qualquer tipo de dogmatismo.

Depois de Pirro, muitos outros filósofos tornaram o ceticismo uma das mais importantes correntes filosóficas até os dias de hoje. Atualmente, alguns céticos defendem o probabilismo ou falibilismo, ou seja, na impossibilidade de encontrarmos verdades absolutas, seja pelas limitações de nossos sentidos e intelecto, seja pela complexidade da realidade, devemos tratar nossas crenças sempre como provisórias, como quem anda em gelo fino.



Desse modo, um cético nunca seria pego de surpresa se algo que todos acreditavam ser verdade se revelasse falso no futuro. Por outro lado, reconhecer que as verdades são provisórias não significa uma completa inação. Sabemos que os remédios são falhos, mas são a única coisa que temos para combater as doenças.



Isso também vale para o campo da ética. O filósofo Montaigne propunha que vivêssemos em harmonia com os costumes de nosso povo ou cultura, pois embora eles sejam falhos, são tão falhos quanto os de qualquer outro povo, não havendo razão para preferir este a aquele.


Despertar do sono dogmático


Conta a lenda que Pirro morreu enquanto dava aula de olhos vendados. Um aluno o teria alertado quanto ao precipício à sua frente. Cético, Pirro desconfiou do aluno e caiu. Essa lenda, obviamente, pretende mostrar os perigos de se duvidar de tudo. Mas será que um cético autêntico não duvidaria também de suas próprias dúvidas?

Odiado por alguns, o cético é como a abelha que aferroa o boi do conhecimento, retirando-o da mesmice das ideias prontas e acabadas, nos provocando, por meio da dúvida, a investigar a fundo os pressupostos de nossas crenças; ou, como diria Kant, o cético é aquele que nos desperta do nosso sono dogmático para lembrar-nos que pensar não é um fim, mas uma atividade.

Josué Cândido da Silva- UOL Educação

sábado, 4 de setembro de 2010

A valorização do professor é fator decisivo para uma educação de qualidade



Em ano eleitoral, quero levantar uma bandeira em prol da educação de qualidade. Pois, que a educação no nosso País vai mal, não é novidade. Aliás, essa é uma informação recorrente nos meios de comunicação. Principalmente, quando os dados de alguns índices de avaliação são divulgados. Isso é real. O que não é real é o fato de apontarem o professor como o único e principal responsável por essa situação. Quando, na realidade, ele é um entre tantos outros responsáveis pela educação, inclusive, o Governo e os pais. Isso mesmo, ele é um dos profissionais que atua na escola, mas não o único. Outro fator agravante é o fato de aceitarem que educação seja “doação”. Até mesmo o professor “inconscientemente” age desse modo. Pois, quando alguém pergunta a ele o que faz, o mesmo responde: “dou aula”. Quando me refiro à valorização do professor, não faço uma cobrança unilateral, apenas ao Governo, à Secretaria de Educação ou ao MEC. Cobro também a valorização pessoal do professor. É preciso que ele tenha orgulho do que faz, é preciso sentir-se importante em sua tarefa, que é educar. Para isso, em primeiro lugar, o professor precisa parar de se sentir o “coitadinho” e ir à luta! Até porque quem trabalha na educação já é um “Herói”.


Vocês sabem qual é a rotina de um professor? Não? Pois, todos deveriam conhecer a desgastante rotina de quem trabalha com educação, ainda mais no Brasil. Falar horas seguidas, trabalhar em pé e ter “jogo de cintura” para lidar com alunos problemáticos são desafios que exigem bastante do físico e do psicológico. E, cedo ou tarde, as más condições de trabalho resultam em problemas que comprometem a eficiência do profissional. Conforme dados consultados, o número de professores que ficam doentes a cada ano é assustador e, em função disso, milhares de faltas são abonadas uma vez que foram acarretadas em função de problemas de saúde. E, nisso, os pais também têm uma grande responsabilidade. Conheço alguns que dão graças a Deus quando mandam os filhos para a escola, pois nem eles aguentam. Sem falar que não dão o mínimo de educação para seus filhos em casa. Como pode? Lembre-se que educação vem de berço. As tarefas ficariam mais equilibradas se cada uma das partes desempenhasse bem o seu papel: os pais educam e os professores ensinam. Embora, a grande maioria acha que as tarefas são as mesmas, mas não são.


Como essas tarefas não estão equilibradas, o professor na maioria das vezes tem que se desdobrar para ensinar e fazer o papel de pai, mãe, assistente social, psicólogo, malabarista, etc., e, em função disso, é comum encontrarmos professores estressados, mal humorados, de mal com a vida, sem paciência com os alunos. Não se assustem, agora, pelos menos, temos um nome “chique” para isso, esses sintomas fazem parte da síndrome de Burnout (já que no passado, dizia-se do professor que apresentasse esses sintomas que ele estava “tãn tãn” e, recentemente, que “pirô o cabeção”). Melhor esclarecendo, a síndrome de Burnout caracteriza-se por uma excessiva exaustão física e emocional, começa com um sentimento de desconforto que aumenta, enquanto a vontade de lecionar diminui. Burnout pode ser traduzido como queimar, pifar. O principal causador da síndrome de Burnout é o estresse. E o professor tem motivos de sobra para ficar estressado. Você acha que não? Então, troque de lugar com ele apenas por um dia e depois você me fala. Governo, sociedade, pais, façam algo rápido, levantem também uma bandeira em prol da educação de qualidade, pois, caso contrário, a síndrome de Burnout, continuará a fazer vítimas.






Texto de Zélia Nolasco Freire enviado ao Jornal Virtual. A educadora é formada em Letras com Licenciatura Plena, com Doutorado em Letras pela UNESP/Assis. Professora dos Cursos de Letras da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS).


Email: zelianolasco@uems.br

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o reino escolar


Faz pouco tempo que a pasta da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo foi ocupada por um professor que, em suas palestras, propunha a pedagogia do afeto. Era preciso que professores acolhessem os alunos de um modo semelhante às pregações de Jesus Cristo nos Evangelhos. Só faltava ter de alterar o ensinamento do Filho de Deus para “deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o reino escolar”. De fato, o ambiente escolar hoje é, mais do que nunca, não apenas das crianças, mas também de adolescentes e jovens. Isso seria ótimo se esse “reino” fosse lugar de constante ensino e aprendizagem. O que houve, na verdade, foi uma distorção de valores e incumbências, pois, infelizmente, muitos jovens vão à escola com o último interesse em estudar. Compete ao professor hoje dar atenção ao aluno para que ele não se sinta excluído do “reino escolar”, mas isso não quer dizer necessariamente que o educador tenha de ensinar intensa e entusiasticamente os conteúdos aos seus estudantes. O professor tem de ser paciente com a realidade do aluno; o professor tem de compreender as dificuldades por que passam estudantes e sua família; o professor não pode exigir demais dos alunos, senão eles podem se desanimar com os estudos e abandonar a escola; o professor tem de concordar com as todas as atitudes dos que estão ali para estudar, respeitando a vontade dos alunos sobre o que ensinar, como ensinar, quando ensinar, para que ensinar e se realmente é preciso ensinar; o professor tem de compreender que o aluno tem o direito de aprender quando lhe aprouver, mas o educador deve saber que ele tem a obrigação de ensinar sempre, procurando motivar o estudante para o real significado dos conteúdos escolares; o professor tem de ser assistencialista, pois já não há mais espaço nem época para aquele profissional que apenas preparava aulas, corrigia provas, pesquisava materiais para enriquecimento curricular e realizava tarefas burocráticas (preencher diários, papeletas, ofícios exclusivos da secretaria e da direção de escola etc.); o professor não precisa ter vida própria mas... DEVE SER AMIGO DOS SEUS ALUNOS. Hipocrisia é bobagem... Para ser sincero, não é essa a concepção filosófica de amizade na sala de aula que Aristóteles propôs. De acordo com o filósofo, a amizade se sobrepõe à justiça, já que aquela estabelece a concórdia para a convivência e a manutenção de um mundo mais justo. Para que a amizade seja verdadeira, é necessário preservar princípios éticos, morais e cidadãos. Quando se percebe a ética no ambiente escolar, nota-se que alunos têm confiança em seus professores e ambos estão em constante diálogo. Nesse caso, regras são estabelecidas facilmente, numa convivência diária e democrática. Essa relação dialógica de confiança não envolve apenas professores e alunos, mas os familiares destes e todos os demais envolvidos no processo educacional, incluindo funcionários e, principalmente, diretores e supervisores (já que estes são, antes de assumirem cargos meramente administrativos, professores, e devem se lembrar de que também ocupam cargos pedagógicos). Somente com o fortalecimento desses laços de amizade é que alunos entenderão a importância de que, para sua aprendizagem ser bem-sucedida, é preciso agirem com responsabilidade, compromisso e motivação própria para seu progresso e superação de seu estado atual, vislumbrando - segundo Kant - uma vida melhor. E eles necessitam da ajuda de seus professores e os demais envolvidos na sua vida escolar, que somente pode ser realizada se houver não apenas uma “pedagogia do afeto”, mas, principalmente, uma pedagogia da amizade que abranja a ética, o respeito, a honestidade e o desejo constante pelo saber. Ora, “saber é poder”, segundo Francis Bacon, e professores e alunos têm esse poder...

ARTUR GERALDO PAIS
Professor de Inglês, Português e Espanhol (e amigo!)
EE CAROLINA FRANCINI BURALI

Tempo Rei




Você já teve a sensação de que um fato ocorrido há muitos anos às vezes parece ter ser dado no mês passado? Já viu fotos antigas suas e ficou horrorizado com o corte de cabelo ou com as roupas fora de moda e constatou que muitos anos já se passaram? Pois é. O tempo passa. O tempo voa, já dizia uma propaganda antiga de um banco que nem existe mais.

Minha avó tem 85 anos mas não se reconhece no espelho. Alegre e brincalhona, ela me diz: “Eu não vi o tempo passar. Eu sou a mesma mocinha de 20 anos que um dia eu fui. É assim que me sinto por dentro.”

“Não se iluda, tudo permanecerá do jeito que tem sido, transcorrendo...” canta Gilberto Gil em sua “Tempo Rei”. Talvez o tempo seja mesmo um senhor cheio de majestade. Diante dele todas as formas de poder se curvam.

Os gregos antigos tinham duas palavras para o tempo: chronos e kairos. Enquanto o primeiro refere-se ao tempo cronológico (ou sequencial) que pode ser medido, esse último significa "o momento certo" ou "oportuno": um momento indeterminado no tempo em que algo especial acontece.

E são os momentos especiais que ficam gravados na memória. Não é à toa que uma das frases mais ouvidas é: “Ah, no meu tempo é que era bom!” . Os seres humanos criaram rituais para marcar o tempo bom, o tempo de felicidade. Tudo que for possível para que esse tempo dure é valorizado. Fotos, filmes, símbolos e a velha e eficaz conversa entre amigos, de preferência em festinhas de confraternização.

Uma situação curiosa ocorre quando encontramos pessoas que não vemos há muito tempo, mas que fizeram parte da nossa vida. Ex-colegas de escola, por exemplo. Será que a fulana está mais velha do que eu? Se estamos cercados por amigos, é certo que nos tranquilizam. Muito mais velha do que você! Mais tarde, sozinhas com nosso pensamento, temos um calafrio só de imaginar que devemos ter passado a mesma imagem pra outra pessoa. Estamos tão velhos quanto ela.

Não se iludam

Não me iludo

Tudo agora mesmo

Pode estar por um segundo...(Gilberto Gil)

Temos medo de ser como são quase todos: medíocres

ADORO O teatro. Brinquei de teatro na juventude. Esta foi minha primeira traição à medicina. Mas já tinha um filho e já era casado. É quase impossível fazer teatro e ter uma vida familiar normal no Brasil, dadas as condições em que trabalham os profissionais envolvidos com o teatro.





Isso deveria ser objeto de preocupação de todos, mas nossos oficiais da educação e da cultura se ocupam com coisas menores, como a burocracia das produtividades e das quantidades que sempre atrapalha a criação efetiva do que importa.


Aliás, a avassaladora tendência fascista de nossa época deveria ceder lugar a projetos educacionais verdadeiros. Mas não. Em lugar de projetos que eduquem os mais jovens para a condição humana, vivemos sob a tutela de burocratas que inventam todo dia modos de controlar nossas vidas, o que comemos, o que sentimos e o que pensamos, chegando ao cúmulo de querer “roubar” os direitos autorais dos outros, usurpando tudo em nome da “justiça social” -belo conceito, mas que serve a todo tipo de invasão da propriedade alheia e mau-caratismo ideológico. E vai piorar.


Que tal se levássemos o teatro a todas as escolas, tornando aulas de interpretação, dramaturgia e direção teatral parte do currículo obrigatório dos alunos?


O teatro educa nossa alma e nosso corpo, nos ensinando palavras que dão nome aos nossos espantos, medos e alegrias. Fazendo-nos debruçar sobre o humano em nós, este mesmo humano que vive acuado na banalidade das horas.


Poder educar com Shakespeare, Tchekhov, Sófocles, Nelson Rodrigues, entre outros, nos levaria a anos luz de distância da burocracia das produtividades e das quantidades que contamina as escolas, afogando-as na quase total insignificância espiritual.


Mas, sei que divago, sonhando com um mundo onde a educação não seria o terreno baldio que é. Habitado por todo tipo de utopias falsas e pequenos egos.


Recentemente assisti a um espetáculo no Teatro da Cultura Inglesa, “ Piscina (sem água)" do britânico Mark Ravenhill, vencedor do 14º Cultura Inglesa Festival. Este espetáculo deveria ser levado a toda parte porque fala de algo essencial: a ambiguidade e a mediocridade humanas travestidas de bons sentimentos.


O enredo trata de um grupo de amigos artistas no qual uma delas é infinitamente superior aos outros. Fica rica e famosa com sua arte. O ódio ao sucesso da “amiga” os leva à loucura. Mas este ódio, escondido atrás de palavras doces, fala da dificuldade que temos de encarar o óbvio: nem todos nós temos talento e a maioria de nós é e sempre foi medíocre.


Voltando ao tema da educação, ao contrário do que tentam dizer muitos especialistas em educação, os mais jovens, sim, aguentam que falemos coisas assim pra eles.


Justamente porque são mais jovens, são menos infectados por esta doença mortal chamada medo da vida (que, cá entre nós, dá medo mesmo). Eles não precisam que fiquemos mentindo sobre algo que, no fundo e no silêncio de si mesmos, sabem: temos medo de ser medíocres e de que nossa vida seja um atestado definitivo de nossa insignificância. E quase sempre é.


A peça fala de arte e de amizade, mas vai muito além. A arte serve apenas como “desculpa” para falar do ressentimento da maioria contra a beleza da amiga “abençoada” (termo do próprio texto pra se referir a ela).


Fosse a “abençoada” uma engenheira numa fábrica de foguetes, o problema seria o mesmo: ressentimento e inveja por parte dos colegas medíocres. Em épocas como a nossa, na qual a sensibilidade dos ressentidos é vista como “direito à igualdade”, este texto deveria ser gritado em voz alta em todos os cantos do mundo.


Ao final da peça, a “abençoada” descobre o que os “amigos” fazem pelas suas costas (não vou dizer o que eles fazem, trate de ir ver a peça). Ela grita: “Vocês são uns medíocres!” Ouvir isso é um “alívio”, diz um dos medíocres.


Alívio para uma alma que derrete de medo diante do fracasso de sua vida. A fala da “abençoada” abre para seus “amigos” a chance de viver de outra forma. A sinceridade pode curar um covarde. Experimente um dia.






Artigo publicado na Folha de São Paulo, segunda-feira, 23 de agosto de 2010.


** Luis Felipe Pondé é filósofo e psicanalista, doutorado em Filosofia pela USP/Universidade de Paris e pós-doutorado em Epistemologia pela Universidade de Tel Aviv. Atuou como professor convidado nas universidades de Marburg (Alemanha) e de Sevilha (Espanha). Atualmente é professor do programa de pós-graduação em Ciências da Religião e do Departamento de Teologia da PUC- SP, da Faculdade de Comunicação da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado) e professor convidado da pós-graduação de ensino em ciências da saúde da Universidade Federal de São Paulo e da Casa do Saber.


Autor, entre outros títulos, de ” O Homem Insuficiente “, ” Crítica e Profecia “, ” Filosofia da Religião em Dostoievski”, ” Conhecimento na Desgraça ” e ” Ensaios de Filosofia da Religião”. É articulista da Folha de S. Paulo, com coluna semanal às segundas-feiras.