Vanguart

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O CIRCO





Ah! Como eu queria que fosse diferente! E que essa minha inquietação fosse um mero capricho, uma necessidade de desabafo à toa. Mas, infelizmente, não é. Há muito tempo, nos primórdios, eu levava uns puxões de orelha e uma ou outra reguada, sabe-se se lá o porquê. Faladeira do jeito que sou, imagino que qualquer movimento a mais na classe chamava a minha atenção para um comentário com a coleguinha da frente. O fato é que toda a psicologia e psiquiatria advinda após meus anos de escola, os direitos humanos, a teoria da prosperidade (ts...), e sabe-se lá o escambau, resolveram demonizar a educação brasileira, sobretudo a pública, e os professores são os grandes vilões, os psicopatas, os demônios temíveis, os malucos do parque, os mal-preparados... Vá de retro Satanás!
Eu poderia listar agora pelo menos uns trinta ex-coleguinhas que se deram bem nas mais variadas profissões. De mecânicos a médicos, passando por engenheiros que trabalham no exterior e ex-fisioterapeutas da Seleção Brasileira. Mas para quê, se a vaca já foi brejo, a Inês é morta e ninguém se sensibiliza? Ainda mais num país onde não importa se fulano é desonesto, mas se é bem-sucedido... Gente que engana os outros está por aí, nos outdoors, como exemplo de sucesso.
Ora bolas! Eu não quero entrar no mérito das questões político-sociais que assolam meu pais. Eu quero simplesmente declarar a minha solidariedade aos meus colegas professores. Eu prevejo uma explosão nas escolas - públicas e privadas - uma catástrofe, uma tragédia digna de acompanhamento “live” pela CNN International.
Eu não sei quantos cidadãos brasileiros tiveram o prazer de visitar uma escola nos últimos vinte anos. Se não, vou colocá-los a par. Professores à beira de um ataque de nervos fazem o papel de palhaços, intercalando com o de adestradores, ora entretendo, ora domando os seus alunos. Esses fazem o possível e o impossível para desviar o mestre de suas funções de educador e, assim, garantirem o "entretenimento".
Alguns “estudiosos” - que, diga-se de passagem, jamais puseram os pés numa sala de aula, só para fazer uso desse clichê, infelizmente verdadeiro - garantem que os professores estão mal-preparados, que sua formação é deficiente, que não fazem cursos de "reciclagem" - como coisa que professor é lixo... Ainda que assim fosse, ainda que eles resolvessem se sentar e ler o jornal do dia - como muitos dos meus assim fizeram - eles são professores, ralaram por no mínimo quatro anos de uma universidade, enfrentaram maratonas de concursos e atribuições de aulas para estarem onde estão. Se o nosso país honrasse as pessoas dignas, eles - os professores - estariam no topo da lista, seriam respeitados e ainda haveria esperança.
Infelizmente, o que se vê são pais sem formação cultural e ética nenhuma adentrando as escolas muitas vezes como selvagens, gritando que seus filhos são meigos e sensíveis, e que algum mal-entendido muito grande deve ter ocorrido. Isso quando o professor não é considerado mentiroso e inescrupuloso, simplesmente porque não admitiu um xingamento de baixo calão ("coitadinho do meu filho, ele toma um remédio fortíssimo") ou até um soco na cara - pasmem!
Pode até parecer estranho, mas no tempo dos puxões de orelha e das reguadas, havia igualdade, inclusão. Não importava se o fulaninho era filho do dono da padaria, ou se era órfão de pai. Todos tinham os mesmos deveres: respeitar o próximo e estudar. A professora era venerada e era paga para simplesmente ensinar. Olhem ao seu redor: seus vizinhos, seus colegas de trabalho estudaram muito provavelmente mais de vinte anos atrás. Vocês observam algum comportamento estranho, algum desvio de caráter? Escola não é circo. Professor não é palhaço.

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